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Dadaísmo em Paris


Texto: Cristina Tolentino
cristolenttino@gmail.com

Em fins de 1919, conta André Breton: "Tzara chega a Paris como um Messias. Nas primeiras palavras que pronuncia parece-me descobrir nele uma riquíssima vida interior, e eu aceito de cara as suas mais arriscadas propostas." Breton já havia lido os primeiros números da revista Dadá, juntamente com Apollinaire desde 1917. Com a chegada de Tzara em Paris tem início as manifestações dadaístas nesta cidade, como o "Festival Dadá" na Sale Gaveau e o "Processo a Barrès" na sala das Sociétés Savantes em 1921. Surge também outras revistas dadaístas, como "Proverbe" de Paul Éluard e "Cannibale", de Franz Picabia.


Passeio dadá a St. Julien le Pauvre
Passeio dadá a St. Julien le Pauvre, 1921 (da esquerda para a direita): Jean Crotti, um jornalista, André Breton, Jacques Rigaut, Paul Eluard, George Ribemont-Dessaignes, Benjamin Péret, Théodore Fraenkel, Louis Aragon, Tristan Tzara, Philippe Soupault.

poemas de Tzara

revista Dadá

A primeira apresentação pública de Dadá em Paris causou um grande tumulto. Tzara estava presente e leu poemas de sua autoria. Participaram do evento: Breton, Aragon, Soupault, Ribemont-Dessagnes, Paul Eluard, Birot, Radiguet, Birot e Cocteau - o grupo dadaísta de Paris. Ainda estava vinculada a esta apresentação, uma exposição com as obras de Juan Gris, De Chirico, Líger, Ribemont-Dessagnes e Lipschitz. Tzara leu partes de um artigo de jornal acompanhado de repiques de sinos, toques de campainhas, etc. Picabia produziu ao vivo, um enorme desenho num quadro e ia apagando as partes que acabava de terminar, antes de iniciar as seguintes.O público começou a fazer barulho e tudo acabou numa grande algazarra e confusão.

Logo após é publicado por Tzara, o "Bulletin Dadá" como o número 6 da revista Dadá, iniciada em Zurique.Colaboraram nesta revista Picabia, Aragon, Breton, Ribemont-Dessagnes, Eluard, Duchamp (vindo de Nova York).

No dia 05 de fevereiro de 1920, no Salon des Indépendents, foram realizados vários manifestos dadaístas. Os manifestos eram cantados como salmos no meio de um grande barulho, que forçava a interrupção da apresentação de tempos em tempos, enquanto o público jogava detritos no palco. Dadá irritava as pessoas que iam assistir seus espetáculos.

Em 27 de março de 1920, houve uma grande apresentação dadá no Theater de L'oeuvre, juntamente com o lançamento do número 7 da revista Dadá, batizado por Tzara de "DADÁ phone". A revista trazia retratos do grupo de Paris, poema de Breton e outros artigos.

Houve leitura de vários manifestos, entre eles "Manifest cannibale dans l'obscurité", de Picabia e lido por André Breton (Picabia não gostava de aparecer em público).

"Vocês todos são acusados: levantem-se! Só se pode falar com vocês quando estão de pé. Fiquem de pé, como se estivessem ouvindo a Marselhesa, o hino nacional russo ou God save the King.

Fiquem de pé, como se estivessem diante da bandeira. Ou como se estivessem diante de Dadá, que significa vida, e os acusa de amar tudo por esnobismo, contando que seja bastante caro.

Vocês voltarão a sentar-se? Tanto melhor, assim me ouvirão com maior atenção.

O que é que vocês fazem aqui, amalhados como crustáceos sérios - porque vocês são sérios, não é? Sérios, sérios, sérios até a morte. A morte é uma coisa séria, não é mesmo? Morre-se como herói ou como idiota, o que dá na mesma. A única palavra que tem um valor mais duradouro é a palavra morte.

Vocês amam a morte que os outros morrem. A mort! Matem-nos, deixem que eles estiquem a canela! Só o dinheiro não morre, ele apenas vai viajar um pouco. Ele é Deus! Todos o veneram, uma personalidade respeitável!

Dinheiro, a genuflexão de famílias inteiras. Viva o dinheiro! Viva! O homem que possui dinheiro é um homem respeitável.

A honra é comprada e vendida como - o traseiro. O traseiro representa a vida como as batatas fritas, e todos vocês, com toda esta responsabilidade, fedem mais do que esterco.

No que diz respeito a Dadá: ele não tem cheiro; pois ele não significa nada, absolutamente nada.



Dadá é como as esperanças de vocês, nada.
como o paraíso de vocês, nada.
como os ídolos de vocês, nada.
como os líderes políticos de vocês, nada.
como os heróis de vocês, nada.
como os artistas de vocês, nada.
como as religiões de vocês, nada.
Assobiem, gritem, quebrem minha cara - e o que resta?
Vou continuar dizendo que vocês são patetas, e lhes vendendo nossos quadros por alguns francos."

Ribemont-Dessagnes escreve a respeito deste evento: "O grande número de espectadores desenfreou-se. Aquilo que o público já sabia de Dadá atraía-o pela expectativa prazenteira de um escândalo. E, de fato, as pessoas eram continuamente provocadas e agredidas em todos os seu hábitos artísticos e intelectuais. Zombar da arte, da filosofia, da ordem estabelecida, dos dogmas, do absoluto que rege todo comportamento coletivo e individual significava, realmente, puxar a cadeira dos seus traseiros..." ( )..."Assim, os espectadores julgavam-se no pleno direito de partir para o ataque com uivos, gritos e assobios. Mas, ao mesmo tempo, sentiam-se satisfeitos por terem tido o espetáculo pelo qual haviam comparecido."


Soirée dadá na Salle Gaveau, Paris
Soirée dadá na Salle Gaveau, Paris, 26 de maio de 1920


O apogeu do dadaísmo em Paris aconteceu na apresentação no Salle Gaveau, em 26 de maio de 1920. Um enorme sucesso escandaloso com participação ativa do público (que jogava tomates, ovos e até bifes no palco, enquanto eram apresentados os manifestos e esquetes). A imprensa estraçalhou o dadaísmo e todo mundo discutia dadá com reações positivas ou negativas.

Em 1922, Dadá começa a extinguir-se em Paris, após uma série de discussões e discordâncias internas entre os antigos dadaístas (Tzara e Picabia) e o grupo françês mais jovem (que incluía André Breton - um dos fundadores do Surrealismo, movimento pós-dadaísta).

Alguns artistas do movimento dadaísta:





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