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Dadaísmo em Zurique - Revista


Texto: Cristina Tolentino
cristolenttino@gmail.com

Ball usava traje especial, como ele mesmo descreve: "traje concebido por Janco e por mim. Minhas pernas estavam enfiadas numa coluna feita de cartolina azul brilhante que ia até a minha cintura, o que, até aquela altura, me dava a aparência de um obelisco. Por cima eu usava uma enorme gola de papelão, revestida de escarlate por dentro e de amarelo-ouro por fora, presa ao pescoço de tal modo que eu podia movimenta-la à semelhança de asas, levantando e abaixando os cotovelos. O traje era complementado por um chapéu de feiticeiro, parecido com uma cartola, com listras brancas e azuis.
O público consternado inicialmente, acabou por explodir."

A poesia abandona a língua, como a pintura o fez com os objetos. Os poemas sonoristas pretenderam renunciar a uma linguagem já devastada: "É preciso que nos retiremos para a mais profunda alquimia da palavra e que até mesmo abandonemos a alquimia da palavra, para, desta maneira, preservar os mais sagrados domínios da poesia."

O dadaísmo se mostra povoado de ecos do futurismo italiano, no seu discurso agressivo, na linguagem violenta de seus manifestos, em suas experiências com o ruído e a simultaneidade, mas com uma diferença: o futurismo possuía um programa e o dadaísmo era visceralmente antiprogramático. A busca de uma verdade não sujeita às regras pré-estabelecidas, regras políticas e morais e também, artísticas. O seu programa era não ter programa, não ter liames estéticos e sociais:

"Dadá não significa nada"- Dadá foi produzido na boca." (manifesto Dadá de 1918 - Tristan Tzara)

"A arte vai adormecer. A arte imitativa, papagaida, substituía por Dadá. A arte precisa ser operada. A arte é uma exigência especial, aquecida pela timidez do sistema urinário, histeria, nascida no ateliê." ( Tristan Tezara)

"Todos vocês estão acusados: levantem-se! De pé, como fariam para ouvir a Marselhesa ou Deus Salve o Rei...
Dadá, sozinho não cheira a nada; não é nada, nada, nada.
É como as suas esperanças: nada.
Como o seu paraíso: nada.
Como os seus ídolos: nada.
Como os seus políticos: nada.
Como os seus heróis: nada.
Como os seus artistas: nada.
Como as suas religiões: nada.
Vaiem, gritem, esmurrem meus dentes, e daí? Continuarei dizendo que vocês são uns débeis mentais.
Daqui a três meses, meus amigos e eu lhes estaremos vendendo os seus retratos, por uns poucos francos.

( Manifesto canibal Dadá, de Francis Picabia, lido na noite Dadá, no Théâtre de la Maison de l'Oeuvre, Paris, 27 de março de 1920).

O espanhol Francis Picabia chega em Zurique em 1918, vindo de Nova York. Sua descrença total pela arte e sua falta de sentido da vida opera uma mudança radical no movimento dadaísta. Hans Hichter diz a respeito de Picabia: "Encontrei Picabia poucas vezes, mas estes encontros sempre foram para mim, algo como a experiência da morte: extremamente estranho, extremamente atraente, extraordinariamente instigante e assustador. Possivelmente, entretanto, todos nós tivemos, em determinado momento, e por algum tempo., a necessidade de seguir o impulso antivida que Picabia expressava de maneira tão virulenta. Lembro-me de que em horas de desespero e em fase à guerra, à injustiça, caminhei pelo meu ateliê e destruí com pontapés os meus próprios quadros que olhavam para mim. Não sei de que forma este impulso de autodestruição se manifestou nos meus amigos, mas lembro-me das profundas depressões sofridas por Janco, habitualmente tão equilibrado e gentil." (...) " o movimento parecia ter deixado para trás o equilíbrio entre arte e antiarte, para enveredar pelo reino estratosférico do alegre Nada."

Tzara fica fascinado pela personalidade dominadora e fascinante de Picabia e no seu Manifesto Dadá 1918 expressa o seu niilismo:

"Filosofia, eis a questão: de que lado olharemos a vida, Deus, pensamento, ou que outro tipo de fenômeno? Tudo o que vemos é falso."

Picabia edita em Zurique, o número 8 de sua revista 391, fundada em Barcelona, e que atesta oficialmente sua vinculação direta com o movimento Dadá.
Muitas obras dadaístas tiveram na sua criação o método da "poesia no chapéu" - recolhendo diversos elementos e colocando-os juntos segundo a casualidade das suas formas, das suas cores, da sua matéria:

"Para fazer uma poesia dadaísta:
Pegue um jornal.
Pegue uma tesoura.
Escolha no jornal um artigo que tenha o comprimento que você deseja dar à sua poesia.
Recorte o artigo.
Corte de novo com cuidado, cada palavra que forma este artigo e coloque todas as palavras num saquinho.
Agite delicadamente.
Tire uma palavra depois da outra colocando-as na ordem em que você as tirou.
Copie-as conscienciosamente.
A poesia se parecerá com você.
Ei-lo transformado em escritor infinitamente original e dotado de encantadora sensibilidade..."

(Manifesto Dadá de 1918 - Tristan Tzara).

Serões provocadores, recitais inconformistas, declamações cacofônicas e, podemos dizer, os primeiros happenings da história, baseados na inspiração casual, no absurdo e no anti-racionalismo. Este era o clima do Cabaré Voltaire, onde nasceu o "movimento mais subversivo da história da arte e das letras."

A Revista Dadá

A revista "Dada" resultou de um trabalho em conjunto de Janco, Arp, Ball, Huelsenbeck, Hans Richter e de muitos outros dadaístas. Tristan Tzara era o editor, o carro chefe, com toda sua energia, paixão e talento organizador. Vários foram os manifestos publicados na revista Dadá. Teses, anti-teses e a-teses:

Volta: Dadaísmo em Zurique


Alguns artistas do movimento dadaísta:





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