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Dadaísmo em Zurique


Texto: Cristina Tolentino
cristolenttino@gmail.com

Hugo Ball e Emmy Hennings
Hugo Ball e Emmy Hennings

Início da Primeira Guerra Mundial. 1915. Chegou na Suíça, em Zurique, um escritor e diretor de teatro: Hugo Ball. Veio com uma amiga chamada Emmy Hennings, que cantava e recitava poemas.

Em primeiro de fevereiro de 1916, Ball funda o Cabaré Voltaire. Um cabaré literário. Emmy cantava e Ball a acompanhava ao piano. Em 2 de fevereiro uma notícia no jornal: "...o Cabaré Voltaire exorta todos os jovens artistas de Zurique para que compareçam com sugestões e contribuições, sem se preocupar com esta ou aquela orientação artística."

Os jovens compareceram. Ball relata: "no dia 5 de fevereiro o recinto estava superlotado; muitos não encontravam mais lugar. Por volta das seis horas da tarde, quando o pessoal ainda se encontrava martelando com afinco e afixando cartazes, apareceu uma delegação de quatro homenzinhos, de aspecto oriental, com pastas e quadros debaixo do braço, fazendo várias mesuras discretas. Apresentaram-se: Marcel Janco, o pintor, Tristan Tzara, Georges Janco e um quarto senhor, cujo nome me escapou. Por acaso, Arp também estava lá, e todos se entenderam com poucas palavras. Logo em seguida, os generosos Arcanjos de Janco estavam pendurados ao lado das outras coisas bonitas, e na mesma noite Tzara recitou versos em estilo antigo, que foi tirando dos bolsos do paletó de uma maneira muito simpática."

Zurique era o refúgio de vários personagens irregulares: desertores, emigrados políticos, agentes secretos, etc. Havia também artistas literatos e poetas que chegaram em Zurique por motivos os mais diversos. Tzara e Janco vieram da Romênia e já moravam em Zurique por motivos de estudo (Tzara estudava filosofia e Janco, arquitetura). Com a declaração de guerra da Romênia foram obrigados a permanecer na Suíça. Hanz Arp veio de Paris e chegou em Zurique para encontrar com sua mãe, que era alemã. Hugo Ball, que estava alistado no exército alemão, escolheu a Suíça como asilo. Richard Huelsenbeck e Hans Richter também vieram da Alemanha. Estes homens deram vida ao Cabaré Voltaire, onde nasceu o DADAÍSMO.

Sophie Taeuber e Hans Arp
Sophie Taeuber e Hans Arp, Zurique, 1918
Tristan Tzara
Tristan Tzara, Zurique, 1917
Marcel Janco
Marcel Janco, Zurique, 1916-17
Dr. Richard Huelsenbeck
Dr. Richard Huelsenbeck, Berlim, 1917

De onde surgiu a palavra dadá? Como diz Hans Richter: "Até hoje é impossível constatar quem achou ou inventou a palavra Dadá, ou o que ela significa." Várias são as versões desta descoberta, várias foram as polêmicas que surgiram em torno da autoria desta marca. Huelsenberck diz: "Ball e eu descobrimos a palavra Dadá, por acaso, num dicionário francês-alemão, quando procurávamos um nome artístico para madame LeRoy, a cantora do nosso Cabaré. Dadá é uma palavra francesa, que significa cavalo de pau."

Já Hans Arp declara, em 1921, na revista do movimento: "Declaro que Tristan Tzara encontrou a palavra dadá em 08 de fevereiro de 1916 às seis da tarde. Eu estava presente com os meus doze filhos quando Tzara pronunciou pela primeira vez essa palavra que despertou em todos nós legítimo esntusiasmo. Isso aconteceu no Café Terasse de Zurique enquanto eu levava uma brioche à narina esquerda. Estou convencido de que esta palavra não tem nenhuma importância e que apenas os imbecis e os professores espanhóis podem interessar-se pelos dados. Aquilo que nos interessa é o espírito dadaísta e nós éramos todos dadaístas antes da existência de dadá."

Em 18 de abril de 1916, Tzara deu esta versão: "Uma palavra nasceu, não sei como."

E Ribemont-Dessaignes confirma que o caso dependeu de "um cortador de papel ter escorregado acidentalmente entre as páginas do dicionário."

A palavra dadá, segundo Baal, traz várias explicações que ficam em aberto: "Dadá em romeno, significa Sim, Sim; em francês, cavalo de pau. Para os alemães, a palavra é um sinal de ingenuidade tola e disparatada, e de simpatia, cheia de alegria procriadora, pelo carro de criança."

O certo é que a palavra Dadá apareceu impressa pela primeira vez no Cabaré Voltaire, no dia 15 de junho de 1916. Estas disputas pela autoria do nome Dadá, só aconteceram após a expansão internacional do movimento dadaísta. Em Zurique, quando o movimento estava sendo vivenciado, estas referidas disputas nunca existiram.

Por algum tempo, houve muita discussão em torno do que seria uma arte nova, uma nova poesia dentro do contexto em que estavam vivendo. Janco e Hans Arp descreviam a situação: "Tínhamos perdido a esperança de uma condição de vida mais justa para a arte em nossa sociedade. Aqueles dentre nós que tinham consciência do problema sentiam o peso de uma enorme responsabilidade. Estávamos indignados com os sofrimentos e o aviltamento do homem."(Janco). "Em Zurique, em 1915, quando perdemos o interesse nas carnificinas da guerra mundial, entregamo-nos às belas-artes. Enquanto ao longe troavam os canhões, nós cantávamos, pintávamos, colávamos e fazíamos poesia a mais não poder, pondo a alma inteira nisso." (Arp)

E qual era a alma? O espírito?

Este espírito foi transformado pela guerra de descontentamento em náusea. Esta náusea foi dirigida contra a sociedade, responsável pelos estragos da guerra e contra a arte e a filosofia impregnadas de racionalismo burguês, a ponto de se tornarem incapazes de criar novas formas, através das quais, se pudesse veicular qualquer tipo de protesto. Opondo-se à paralisia que esta situação parecia conduzir, estes jovens artistas voltaram-se para o absurdo, para o primitivo, para o elementar. Aspiravam uma nova ordem que poderia restaurar o equilíbrio entre o céu e o inferno. Eram contra a arte como instrumento para emburrecer a humanidade. Mais do que a obra é o gesto. Um gesto provocador contra o sentido comum, a moral, a lei ou qualquer norma ou ortodoxia. Transformar poesia em ação. Unir arte e vida.

Em 14 de julho de 1916 realizou-se a primeira noite Dadá: música, danças, manifestos, poemas, pinturas, figurinos, máscaras. Assim escreveu Hans Richter a respeito: "o caldeirão da arte fervia no Cabaré Voltaire, certa noite, ele transbordou."(...) "Campainhas, tambores, chocalhos, batidas na mesa ou em caixas vazias animavam as exigências selvagens da nova linguagem, na nova forma, e excitavam, a partir do físico, um público que inicialmente quedava atordoado atrás dos seus copos de cerveja. Pouco a pouco eram sacudidos e despertados de seu estado de letargia a tal ponto que irrompiam num verdadeiro frenesi de participação. Isto era arte, isto era vida, e era isto o que se queria."

Desenho de Marcel Jango, Cabaret Voltaire
Desenho de Marcel Jango, Cabaret Voltaire, 1916. Desenho, 33 x 30. Galeria Schwarz, Milão.
Os dadaístas quebraram as barreiras do significado das palavras. O importante era criar palavras pela sonoridade. O importante era o grito, o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra. Outra noite, parecida com a primeira noite dadá, Hugo Ball recita o seu primeiro poema sonorista, chamado O Gadji Beri Bimba:

"Gadji beri bimba glandridi laula lonni dacori
Gadjama gramma berida bimbala glandri galassassa
laulitalomini
Gadji beri bin blassa glassala laula lonni cadorsu
sassala bim
gadjama tuffm i zimzalla binban gkigia wowolimai
bin beri ban
o katalominal rhinozerossola hosamen laulitalomini
hoooo gadjama
rhinozerossola hopsamen
bluku terullala blaulala looooo..."

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