Teatro Contemporâneo
Eugenio Barba e o Teatro Antropológico
TEATRO E SENTIDO - TEXTOS DE BARBA
SER E PARECER (Barba e Stanislawski)

"Como pode um ser irradiar esse bios cênico que faz vibrar a presença do ator e tornar densa sua relação com o espectador?

Uma vez mais confronto-me com Stanislawski e pergunto-lhe. Mas os mortos enviam de volta nossas próprias palavras. E assim Stanislawski me fala, porque tudo o que fez, tudo o que criou, fez e criou para mim. Sou seu filho. Todos somos seus filhos. Os homens do teatro ocidental não descendem do macaco, mas de Stanislawski.

Pergunto-me: como era este pai? Como chegou a ser o que é, marcando assim a história? Não me bastam as teorias nem os fatos conhecidos. Quero penetrar até o mais profundo do nó, até aquilo que o inquietava e que o fazia único. Seus ferimentos ocultos, suas obsessões pessoais. Seu motor secreto. Mas, quais eram as obsessões de Stanislawski, esse rico proprietário de uma fábrica de tecidos que fazia teatro amador, e que, com a idade de 35 anos, decidiu consagrar-se inteiramente à profissão e fundou o Teatro de Arte? Por que alguém toma uma decisão semelhante nessa idade? Que necessidades íntimas, que desejos imperiosos o impulsionaram a este giro existencial, fazendo-o mudar até seu sobrenome.

Ele buscava a verdade no palco, como sinceridade total, como autêntica vitalidade. O ator não deve "parecer" o personagem que representa. O ator deve ser o que representa. Essa é a palavra chave: ser, tornar-se unidade, indivíduo, in-divíduo, não-dividido. Ele odiava no teatro "o teatro", os signos mecânicos de um sentimento ausente. Segundo suas próprias palavras: "O teatro é meu inimigo". Igualmente seu inimigo era o ator, o homem que mostrava exteriormente o que não sentia interiormente. Queria chegar a um estado criativo, no qual o ator estivesse animado por uma concentração total de toda sua natureza moral e física.

Seus resultados, a maneira de consegui-los constituem sua busca. A mim e a todos nós legou a pergunta: Como se alcança essa concentração total de toda nossa natureza moral, espiritual e física? Mais ainda: Como ser, como converter-se em in-divíduo através e dentro do teatro?

No começo do século, Stanislawski já era famoso. Tinha seus seguidores, tinha feito escola. Mas não se sentia satisfeito. Abandonou seu teatro, abandonou seus colaboradores, os louvores e a segurança econômica e retirou-se para um pequeno povoado finlandês, para dedicar-se à sua obsessão: como chegar cada noite ao estado criativo; como dar o máximo, o melhor de si mesmo. No fim de um longo e sombrio inverno na Finlândia, regressou a Moscou com o embrião do "sistema", o famoso "se mágico".

Se olho através das frágeis palavras que constituem a superfície opaca anônima das teorias, se sondo as profundidades do "sistema", de seus exercícios e de suas indicações, entrevejo um homem com a atenção fixa em suas inquietudes, tratando de apreendê-las, de encontrar respostas e traduzir esta resposta em ações. Se estou influenciado por Stanislawski, não é porque suas teorias - isto é, suas respostas - tenham me marcado. Mas porque herdei algumas de suas obsessões: como preservar a própria dignidade, na vida e no teatro, quando se luta não só contra seus próprios demônios, mas também contra forças obscuras e tangíveis que existem no exterior? E como ser, alcançar a unidade de tudo aquilo que somos, em cada ação que realizamos, em cada palavra que pronunciamos e não somente no contexto escolhido do teatro?"

(textos retirados do livro: BARBA, Eugênio. Além das Ilhas Flutuantes. São Paulo, Editora Hucitec, 1991.)

Percorrendo o caminho de Barba... e não só de Barba, mas como ele mesmo disse, de todos estes mestres que são "herança de nós para nós mesmos", podemos perceber que o que nos une, não são os "métodos", "sistemas", "técnicas", "exercícios" ou qualquer outro nome dado ao inominável, mas esta busca inquietante, não só de um momento, mas de toda uma vida, desta unidade de tudo o que somos colocada no ato da representação, da ação cênica: "porque herdei algumas de suas obsessões: como preservar a própria dignidade, na vida e no teatro, quando se luta não só contra seus próprios demônios, mas também contra forças obscuras e tangíveis que existem no exterior? E como ser, alcançar a unidade de tudo aquilo que somos, em cada ação que realizamos, em cada palavra que pronunciamos e não somente no contexto escolhido do teatro?"

É este desejo imperioso que nos alimenta e nos faz continuar acreditando na força do teatro, enquanto OBRA DE ARTE TOTAL.

Cristina Tolentino ( cristolenttino@yahoo.com.br )

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