Teatro Contemporâneo - Tadeusz Kantor - Tadeusz Kantor e Artaud
Por muitas décadas, as máquinas e manequins de Kantor, seres atocaiados pela morte, ocuparam os palcos da Europa. Seu teatro, fundado meio século depois do teatro de Stanislawski e depois das experiências das vanguardas cubista, dadaísta, construtivista, surrealista, marca o retorno ao teatro não institucionalizado, um novo paradigma...

Ao percorrer o universo teatral de Tadeusz Kantor, busquei perceber sua relação com o “teatro e seu duplo” de Antonin Artaud, tendo encontrado elementos intrínsecos à concepção estética de ambos: objetos, máquinas, bonecos, manequins, a repetição, a ilusão e a realidade, relação espectador-ator, formas de expressões tomadas do circo, perversões, choque, situações cênicas insólitas, a palavra e o literário no teatro, a dialética material da morte e da vida. O imaginário em cena. Espaço onírico que leva o indivíduo ao fundo das coisas. Ancoragem poética. Nada é definitivo. Tudo flui. Plurivalência da imagem. Dialética de aberrações, fantasmas, miragens e alucinações. Um olhar para o panorama total do mundo, abundante em coisas belas, estranhas, problemáticas, terríveis e divinas. A crueldade, o duplo, o transe, a magia, a poesia, o sonho, o encantamento. Visões. Um além-teatro, contra o que na vida há de constituído, de manifesto, de fixo. Um além-teatro, na medida em que pretende para si a eficácia da magia e dos ritos, nos levando ao encontro com as profundezas, com o estado supremo da afirmação da existência, do qual nem mesmo a suprema dor pode ser excluída.

Um jogo ligado ao imprevisível, onde as regras nascem durante, nascem da lógica do acaso, onde cada lance lança suas regras, abolindo as certezas, abrindo novas questões, num olhar sempre inaugural sobre o mundo, emergindo no Perigo, no desejo invencível do vir-a-ser. “O teatro é um ato superior porque pode reabrir o espaço virtual das formas e dos símbolos, alimentando e expandindo os conflitos” (Antonin Artaud).

Um teatro instaurado que se dá na imobilidade do instante e irrompe esse instante. Não há começo, não há fim, não há linearidade, não há ponto fixo. Um teatro que faz acontecer a suspensão de certezas inabaláveis: “não somos livres e o céu ainda pode desabar sobre nossas cabeças” (Antonin Artaud). Leia, nesta página cultural, o artigo “Teatro, enquanto obra de arte total”, de Antonin Artaud.

Cristina Tolentino ( cristolenttino@yahoo.com.br )




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