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Geração Beat

50 anos de estrada

Texto: Pedro Kalil


Movimento Beat completa cinco décadas de existência e mostra vitalidade artística e social, com lançamentos de novos livros de poesia e militância ecológica de escritores que estiveram presentes no momento fundador.

"Ninguém esperava ver os livros publicados, vender as partituras. Fazíamos aquilo porque éramos artistas, não extensões deles." Um dos seis poetas a se apresentar naquela noite de 7 de outubro de 1955, na Six Gallery, em São Francisco, Michel McClure não imaginava o que estava por vir. Ao lado de Allen Ginsberg, Philip Lamantia, Gary Snyder, Kenneth Rexroth e Phil Whalen, foi um dos protagonistas do início do movimento beat. Há outras datas tão importantes para os partidários de uma geração que errou e se arriscou, mas não se rendeu à apatia. Dois anos depois daquele encontro, Jack Kerouac, que esteve presente a ele, conseguiu lançar On the road (escrito durante 20 dias de abril de 1951), a bíblia dos beatniks, que acabou se tornando maior que seu autor. Mas foi naquela noite que as 150 pessoas regadas a vinho barato chegaram a um ponto sem volta, como define McClure.

NOVA VOZ SURGIDA NA AMERICA


Ao ouvir os versos "Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus", McClure soube que a partir dali não havia como retornar "Nós queríamos voz e nós queríamos visões", escreveu ele sobre sua reação depois de ouvir, pela primeira vez, o poema Uivo, de Ginsberg. A noite que mudou a vida de muita gente que foi à Six Gallery - hoje um antiquário na boêmia Fillmore Street -, ganha diferentes pontos de vista. McClure faz o seu retrato em A nova visão - De Blake aos beats, Snyder em Re-habitar - Ensaios e poemas, livros que a Azougue Editorial acaba de colocar nas livrarias. Os 50 anos da geração beat não vão passar em branco no País, que precisou de quase três décadas para conhecê-la. Ainda nesse semestre a editora carioca lança Etnopoesia no milênio, de Jerome Rothemberg. Também está nos planos da Azougue trazer os autores ao Brasil. McClure confirma sua intenção de vir, Snyder está impedido por causa de problemas de saúde na família.

Com todos os excessos daquela geração, os poetas, dois dos poucos remanescentes do grupo inicial - outro ainda vivo é Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights, misto de livraria e editora que lançou obras de todos os beats e continua sendo uma referência em São Francisco - vivem de acordo com o que pregam. Como define McClure, "falamos o que as pessoas precisam saber", seja o assunto vida natural, consciência, política, budismo e ciência. Ainda que reconheçam a marca da geração beat em sua obra, não parecem saudosos de um tempo que passou. Somente meus primeiros livros estiveram conectados com a geração beat. Por mais que admire a obra de Jack Kerouac e Allen Ginsberg, minha escrita é diferente", afirma Snyder. Mesmo assim, acreditam que a história teria sido diferente não fosse a liberdade proposta por eles. "Demos a abertura necessária para as grandes experiências que vieram depois", arremata McClure.

Por: Mariana Peixoto


COM AS MARCAS DA BEATITUDE


A literatura beat é da pesada: sexo, drogas e bebop. Mas não é só isso. Em poesia, ensaios, romances e comportamento, o movimento foi um corte na cultura norte-americana e, com o tempo, irrigou boa parte da arte literária ocidental. O nome beat traz dupla referência: de um lado remete às batidas livres do jazz e, de outro, ao misticismo oriental, em sua alegria beatífica. Beats e beats. Uma mão dada à espontaneidade artística, que foi traduzida na escrita automática, que fluía como um solo de Charlie Parker; e outra à erudição que cava raízes na filosofia, ciência e religião. A literatura pode ter começado com um uivo, nome do poema de Ginsberg, mas era um grito poderoso, resultado de uma voz rica em sofisticação literária, que se alimentava em fontes românticas e modernas. A poesia beat manteve o padrão com Ferlinghetti e Corso, com contribuições na forma, ritmo e estilo.

Na prosa de Jack Kerouac (que vai além da ingenuidade "filosófica" de Salinger) e William S. Burroughs (um experimentalista à altura de Nabokov), estabeleceu-se um padrão de comunicação único, mesmo com temas exigentes e contraculturais. No ensaísmo, em textos como os de Gary Snyder, o leitor aprendeu a incorporar fontes então inusitadas, como o apelo ao naturalismo, à ecologia e às escolas filosóficas orientais.

Os beats ficaram marcados pela proximidade com as experiências radicais, do sexo, marginalidade e drogas. Hoje a batida é outra. Burroughs, o maior deles (que começou antes e sobreviveu à moda) viveu o bastante para ganhar reconhecimento como artista genial. Se a grande questão para a crítica, no caso dos beats, sempre foi separar o comportamento da realização artística, a vida da obra, a história mostrou que onde as duas se misturam, é aí que a arte beat aparece.

Tudo se encaminhava para forçar a batida, o primeiro sentido do beat. Numa literatura espontânea, cheia de som e fúria. Hoje, o exemplo de vidas e obras cuidadosamente realizadas é uma oração de beatitude. Os beats foram radicalmente puros. Alguns continuam a sê-lo. E essa é a maior ousadia de todas, manter a capacidade de sonhar numa sociedade que amarga pesadelos refrigerados.

Por: João Paulo



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