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Geração Beat

A vida como obra de arte


Tradução de "On the road", de Kerouac, em 1984, abriu as portas à literatura beat no Brasil.

Texto: Pedro Kalil


A geração beat demorou quase 30 anos para chegar ao Brasil. A primeira edição de On the road, que Jack Kerouac havia publicado em setembro de 1957 nos Estados Unidos, só saiu aqui em 1984. Seu tradutor, Eduardo Bueno, hoje mais conhecido. Pela autoria da série da Objetiva sobre a história do Brasil, lembra exatamente o dia: 4 de fevereiro de 1984. Editado pela Brasiliense, o livro permaneceu 22 semanas em 2º lugar da lista dos mais vendidos da revista Veja, só perdendo para O nome da rosa, de Umberto Eco.

Até chegar a vender mais de 100 mil exemplares, On the road - Pé na estrada foi recusado por uma dezena de editoras. "No verão de 1975, o li em espanhol (com o título de En el camino) pela primeira vez. A tradução era de 1959 e se alguém quisesse lê-lo em português, teria que recorrer ao lusitano, que se chamava Pela estrada afora e tinha frases como 'Fui-me de boléia ao Orégão num carro descapotável'", conta Bueno.

Obsecado pelo universo de Kerouac, Bueno, em 1977, decidiu refazer a viagem de Sal Paradise e Dean Moriarty. Ele cruzou os Estados Unidos como os personagens de On the road, mas foi além. Perambulou durante um ano e meio pelo mundo, saindo da Argentina, chegando à Europa, de lá ao Oriente, daí aos Estados Unidos e chegando ao Brasil depois de percorrer a América Latina. Me convenci de que a minha tarefa devocional seria traduzi-lo para o português. Quando chagava nas editoras oferecendo, me diziam que o livro já era, tinha quase 30 anos e que maconheiro não lia."
Convenceu a Brasiliense a fazê-lo, assim como a chamar Antônio Bivar para fazer a revisão, já que ele tinha 21 anos e havia traduzido a obra por conta própria. Pouco depois, Bueno se desentendeu com a editora. De volta a Porto Alegre, foi procurar a gaúcha L&PM (uma das que haviam recusado a bíblia beat). Contratado como editor, acabou criando a coleção Alma beat, que publicou, em 12 volumes, livros de Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs, Gary Snyder. Bueno também coordenou a coletânea de ensaios - com textos de Roberto Muggiatti, Bivar, Cláudio Willer e Pepe Escobar, entre outros - que levava o nome da coleção.

Tudo isso em meados dos anos 80. "Foi uma explosão. No início, a imprensa tratou muito bem; depois os mesmos veículos passaram a tratar muito mal, dizendo que era uma sub-literatura, coisa de maconheiro. Até o Paulo Leminski falou mal dos beats, num artigo que dizia para parar de gastar papel com porcaria", afirma Bueno.

Passada a febre, On the road foi reeditado pela Ediouro quando completou 40 anos. Bueno foi chamado para retraduzi-lo mas, envolvido com a série sobre o descobrimento do Brasil, admite tê-lo feito "nas coxas". Somente no ano passado, pela L&PM Pocket, reviu todo o trabalho "linha por linha", fazendo inclusive uma apresentação e um posfácio, onde conta o que passou graças a On the road. Também em versão de bolso podem ser encontrados, pela mesma editora, obras como Livro dos sonhos e Os vagabundos iluminados, de Kerouac, O primeiro terço, de Neal Cassidy e Uivo, de Ginsberg. Outra edição recente é a de Junky, de Burroughts, que faz parte da coleção Intoxicações, da Ediouro.

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