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Geração Beat

Entrevista: Gary Snyder


UM POEMA NO CORAÇÃO


Aos 75 anos (ano referência: 2005), Gary Snyder, o beat budista, que inspirou Jack Kerouac a criar Japhy Rider, personagem de Os vagabundos iluminados, mora há 35 anos na mesma casa de madeira, construída por ele no alto de uma montanha em Sierra Nevada, distante 370 quilômetros de São Francisco natal. Sem eletricidade, somente energia solar, busca levar a vida da maneira mais coerente possível. ''Eu e aqueles com quem convivo não somos pessoas que vão ao Wal-Mart. Usamos alimentos orgânicos, tentamos encontrar maneiras de só comprar coisas de empresas que não exploram os trabalhadores do Terceiro Mundo, atuamos junto aos sindicatos." Com 19 livros publicados - entre eles Turtle island, vencedor do Pulitzer em 1974 - prefere ver a geração beat do lado de fora. "Meus três primeiros livros foram conectados com os deles, mas minha escrita sempre foi diferente da de Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Estamos unidos não tanto pela literatura, mas por termos florescido no mesmo ambiente."

Jornal ESTADO DE MINAS - Nos 50 anos da geração beat, o que o senhor destaca como a maior herança para a literatura?
Gary Snyder - Os beats não inventaram, mas deram continuidade e enfatizaram a liberdade do uso da linguagem coloquial, a exploração do verso livre e a abertura para outras formas de estilo na poesia. A literatura beat retorna a seus ancestrais, como Walt Whitman. Allen Ginsberg foi profundamente influenciado por William Blake. Minha contribuição foi diferente. Fui um dos primeiros escritores da década de 50 que começou a falar sobre natureza, movimentos indígenas e meio-ambiente.

Os beats ficaram conhecidos pela tendência a criar grupos, coletivos. Há espaço para essa atitude hoje em dia?
GS - Absolutamente, isso não pára. O individualismo é um problema da cultura ocidental. As pessoas costumam pensar muito em si mesmas, sem muita preocupação com a complexidade da sociedade e da própria natureza do ser humano.

O senhor escreveu que "não haverá revolução econômica sem revolução sexual". Essa afirmação se mantém atual?
GS - De certa maneira. Acredito que as feministas hão de concordar comigo porque o feminismo é, em parte, uma revolução econômica, pois deu às mulheres liberdade de escolha. Como dizemos nos Estados Unidos, decida sobre sua vida reprodutiva. Porque sexismo, para mim, são apenas jovens transando. Sexo é reprodução, família, a maneira como um homem e uma mulher lidam, juntos, com suas vidas. Uma revolução econômica não pode realmente acontecer sem que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens.
O computador afetou a linguagem da poesia escrita?
GS - Computadores são muito práticos, os tenho usado há anos. O que eles permitem aos escritores e poetas é uma conveniência para organizar as informações. Mas uma coisa sobre a poesia tem que ser lembrada: você tem que estar apto a pensar um poema. Se não tiver um poema em seu coracão, nunca terá um poema.

Como os poetas estão reagindo à globalização?
GS - A maioria dos que conhece são muito críticos em relação à globalização, especialmente àquela liderada pelos países do G-8, particularmente os Estados Unidos. E claro que reconhecemos que existem alguns argumentos válidos para a globalizacão da economia mas, em geral, todos concordamos que ela está machucando o meio-ambiente, os seres humanos, as pequenas nações e culturas.

Como o senhor analisa a política em seu pais, sobretudo no conflito no lraque e o novo fundamentalismo de Bush?
GS - Estou na Califórnia, somos uma nação em separado. Todos nós estamos pensando em uma maneira de manter os valores norte-americanos de que nos orgulhamos: a liberdade de expressão e a negação da guerra, do militarismo e do colonialismo. Temos que nos lembrar que 50% dos americanos votaram em Kerry. E realmente acho que Bush está começando a perder.

Então o senhor tem esperança?
GS - Uma esperança moderada. Porque podemos ver que as pessoas desse país não mais aprovam a guerra no Iraque, estão muito irritadas com os rumos da economia. E o fundamentalismo cristão, embora seja barulhento, representa uma pequena porcentagem, não a maior parte dos EUA.

Por: João Paulo



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