Home | Cultural | Literatura | Movimento 'Beat' | Entrevista: Michael McClure
Geração Beat

Entrevista: Michael McClure


CIÊNCIA DA IMAGINAÇÃO


Antes de iniciar a entrevista, Michael McClure, 72 anos (ano referência: 2005), avisa que a edição brasileira de Scratching the beat surface ficou bastante superior à original, publicada em 1982 nos Estados Unidos. Ensaia a pronúncia do título em português, A nova visão. Por ser a apresentação do autor ao mercado nacional, a edição veio acrescida de cronologia, antologia de poemas e entrevista. A contracapa do livro traz uma foto do autor ao lado de Bob Dylan e Allen Ginsberg, como também a seguinte frase de Dennis Hopper: "Sem a presença de McClure, o rugido que foi a década de 1960 teria sido um simples miado". McClure diz que atualmente se sente totalmente confortável com o mundo da música. Mas nos idos dos anos 60 também fez sua voz ser ouvida. É dele, por exemplo, a autoria de Mercedes Benz, um dos grandes sucessos de Janis Joplin. Sua presença é, ainda hoje, marcante junto a outro ícone da contracultura californiana: The Doors. Confira trechos da entrevista.

Jornal ESTADO DE MINAS - O que ficou do movimento beat 50 anos depois?
Michael McClure - O que de mais importante os beats fizeram foi se enfurecer contra o muro de silêncio e censura que havia nos anos 50. Também demos abertura para as grandes experiências que vieram depois. Uma das coisas que fazemos até hoje é falar contra esse os maníacos dos Estados Unidos que vão contra a Ásia e a América Central. Os beats também promoveram o renascimento da grande poesia, aquela que está em busca de inspiração, novas experiências, imaginação. Fizemos com que a poesia tivesse uma voz, fosse um instrumento contra o medo, a ignorância e a covardia. Ginsberg, além de fazer ações sociais, foi um budista praticante. Snyder foi quem nos apresentou o budismo. É por essas razões que costumo dizer que quando um homem não admite que é um animal, ele é menos que um animal. Essas idéias ficaram como um mantra para fazer com que a arte dos dias de hoje resistisse.

A ciência, sobretudo a biologia, tem uma grande força em seu trabalho. A mesma ciência que tem ameaçado o planeta tem potencial para salvá-lo?
MM - A ciência é imaginação. E é a carência de imaginação que tem feito com que ela se torne um instrumento para cometer crimes, fazer coisas estúpidas. Pertenço ao pensamento da filosofia da natureza pregada na Alemanha no início do século XIX. E um erro pensar que poesia e ciência são coisas separadas. Poesia e ciência têm que estar juntas, mas é claro que isso requer imaginação, percepção, experiência. Meu interesse em biologia vem não somente de livros e revista científicas, mas de visitar lugares diferentes, sentir como é a vida ali. O que vemos nos jornais é um reducionismo, um retrato pobre do que a ciência está fazendo. A maioria dessas coisas é mantida financeiramente pelo governo. Então, por mais interessante que possam parecer, sempre me soam suspeitas pois provavelmente estão sendo promovidas por govemos ou grandes corporações.
O senhor vive há 50 anos na Califórnia. É realmente um mundo à parte se comparado ao restante dos Estados Unidos?
MM - Posso te dizer que a parte norte da Califórnia é uma região onde estão as mentes mais profundas, de mais erudição, que têm respeito pela natureza. É realmente um mundo à parte. Não consigo acreditar que a Califórnia votou em Arnold Schwarzenegger e Ronald Reagan. Então, há surpresas por aqui. E a maioria delas vêm da parte sul do estado.

Que poetas e músicos têm interessado o senhor?
MM - Estive trabalhando com Ray Manzarek por 15 anos. O que fazíamos era essencialmente o que fizemos na Six Gallery: falar para as pessoas o que elas precisavam saber. Fizemos isso em universidade, clubes, ginásios de luta, festivais, lojas de departamento no Japão e pequenas cidades de Iowa. Na verdade, nunca paramos. O que acontece é que como o Ray voltou com os Doors, está fazendo muitos shows. Mas compus recentemente músicas para ele.

Serão gravadas pelo grupo?
MM - Essa é minha esperança e sonho. Mas ele está com problemas com o grupo, coisas que não vêm ao caso nesse momento. Além dele, também estive trabalhando com Ferry Riley (com quem lançou, no ano passado, o CD I Iíke your eyes Liberty) que tem a melhor mente musical que já conheci. Essa manhã, conversando com ele por telefone, falei: 'Estou achando que vou ao Brasil'. Ele disse que quer ir também. Gosto da idéia porque o que fazemos é, além de muito bonito, também acessível ao público. Hoje me sinto bastante confortável para trabalhar com músicos.

Por: João Paulo



Voltar

Quer falar com a gente? (31) 3281.1196 - Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil / estudio@caleidoscopio.art.br || Produção: Caleidoscópio Multimídia