Cultural conheça nossa hospedagem faça seu cadastro envie-nos um email

Eugênio Barba | Treinamento



Texto: Cristina Tolentino
cristolenttino@yahoo.com.br

O treinamento busca criar esta nova arquitetura de tensões no corpo do ator, uma nova tonicidade. E neste treinamento existe um fator objetivo e um fator subjetivo.

Fator objetivo: autodisciplina, rigor, exercícios, constância.
Fator subjetivo: temperatura interior, motivação pessoal - a necessidade única do ator que vai fundir qualquer técnica.

O equilíbrio entre o fator objetivo e subjetivo "vai decidir a duração do trabalho em grupo, definindo de maneira in-dividual e social, o ator e o grupo com o qual trabalha". Barba fala de treinamento e não de escola, pois acredita que o treinamento é um encontro com a realidade que se escolheu, "qualquer coisa que se faça, faça-a com todo o seu ser.". Neste sentido ele distingue "período de aprendizagem" e "relação de aprendizagem": O primeiro se refere a uma escola teatral, onde múltiplos professores, segundo os horários, seguem o ritmo dos relógios e ensinam múltiplas matérias. O segundo se refere a uma relação de aprendizagem, na qual uma só pessoa se coloca diante de nós para nos transformar em in-divíduos, nos ajudar a encontrar o "nosso país". Barba nos diz que esta relação "se nutre de amor..." porém, "amor não é só harmonia adocicada. É também aversão repentina, resistência, abandono, desejo de libertação, sensação de afogamento e vontade de entrega total, sem defesa. Amor é tudo que não é morno, é tensão." É a figura do mestre que nos guia ao encontro de nossas próprias respostas. "Um mestre, cuja voz se mistura à voz dos mortos, que nos respondem com nossas palavras."

Treinamento Roberta Carreri
Treinamento Roberta Carreri, Julia Varley
Barba fala das tradições teatrais, tanto no Oriente como no Ocidente. Estas tradições que elaboram normas para o comportamento dinâmico do ator e que chamamos de codificação. Este trabalho tem como meta sobrepujar o natural, o espontâneo, o automatismo e a construção de uma nova tonicidade muscular: um corpo dilatado. "Matar o próprio corpo", a cultura que o modela e renascer através de novas tensões com a totalidade de suas possibilidades de irradiar vida e de contagiar o espectador. Barba dia que "mata-se o próprio corpo, quando se aprende a utilizá-lo de maneira diferente: uma nova maneira de estar em pé segundo outro eixo de equilíbrio, a caminhar, a locomover-se segundo regras que negam as normas de comportamento cotidiano, como no Teatro Kathakali indiano, a mímica de Decroux, o balé clássico Khon tailandês, o Teatro Nô, o Teatro Kabuki. Esta passagem revela o ator e faz com que o público perceba o bios cênico, uma expressividade anterior à vontade de ser."

"Os anos de aprendizado, o treinamento", diz Barba, "permitem ao ator romper as correntes que o atam a um público particular de teatro, linguagem ou cultura. Em outras palavras: permitem ao ator se especializar sem estar especializado"... "a busca de uma técnica pessoal, que é a recusa de toda técnica que especializa. Uma técnica pessoal capaz de modelar nossas energias, sem permitir que se congelem nessa modelagem. É uma busca de uma temperatura própria". É o caminho da recusa: a busca de estar sempre em transição, de "não se afundar em um território especializado".

Para manter esse corpo-em-vida do teatro, é necessário, segundo Barba, alimentar-se de três órgãos.

Treinamento Iben Nagel Rasmussen
Treinamento Iben Nagel Rasmussen

Julia Varley em Talabot
Julia Varley em "Talabot"
O primeiro é o órgão do esqueleto e da espinha dorsal, da biologia. É o corpo-técnico que se afasta dos automatismos e do condicionamento da vida cotidiana. É o órgão cuja respiração revela o bios do ator em uma fase pré-expressiva, antes que queira expressar algo. Podemos estudar e analisar esse órgão, desenvolvendo-o conscientemente e transmitindo seu conhecimento aos outros.

O segundo é o órgão da u-topia, do não-lugar, que reside nas entranhas e no hemisfério direito do cérebro. São as bússolas e o superego que o mestre ou os mestres implantaram em nós, durante a passagem da técnica cotidiana para a técnica extracotidiana do teatro. É o sentido, o valor, o imperativo categórico que damos, individualmente, ao nosso ofício. A respiração deste órgão faz com que a técnica se afirme e chegue a uma dimensão social e espiritual. É o ethos do teatro, sem o qual qualquer técnica é somente ginástica, destreza corporal, divisão em lugar de unidade. Também sobre este órgão podemos estar atentos e vigilantes, protegê-lo e transmiti-lo.

O terceiro órgão não se pode pegar. É a temperatura irracional e secreta que torna incandescente nossas ações. Poderia chamar-se "talento". Eu o conheço sob outra forma: uma tensão pessoal que se projeta em direção a um objetivo, que se deixa alcançar e que novamente escapa; a unidade das oposições, a conjunção das polaridades. Este órgão pertence ao nosso destino pessoal. Se não o temos, ninguém pode nos ensinar". É o que Barba chama de "motor pessoal". É esse "motor pessoal", essa temperatura, que se tem de buscar por trás das ações e das escolhas das pessoas de teatro.

Qual é o seu motor Pessoal?

space
space
Hospedagem | Cadastro | Email | (31) 3281.1196 | Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil | By: Caleidoscópio

pinos
Cadastre seu email para receber nossas novidades