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Konstantin Stanislawski

(uma proposta ética e a busca da organicidade na ação cênica)

Ao falar em "ações físicas", Stanislawski referia-se a um trabalho eminentemente técnico, que envolve o ator como ser humano integral ( corpo; mente e alma; interno e externo). O trabalho do ator sobre si mesmo, trabalho de percepção do movimento. A busca de uma ação acreditável. A credibilidade da ação, que é diferente de uma ação realista e que exige precisão, justificação interior, presença total do ator. A plástica para Stanislawski não é um movimento, uma gestualidade qualquer. É aquela gestualidade que funciona na cena, no palco. Ações conscientes, não mecânicas, que vêm de impulsos interiores, que tenham conteúdo. Ações justificadas e funcionais.

Representações da figura de Niké
Representações da figura de Niké (vitória).
Foto retirada do livro "A Arte Secreta do Ator", de Eugênio Barba e Nicola Savarese.

Foi ele que usou pela primeira vez o termo partitura. Segundo Eugênio Barba, o termo partitura, implica:

  • "a forma geral da ação, seu ritmo em linhas gerais (início, ápice, conclusão);
  • a precisão dos detalhes fixados: definição exata de todos os segmentos da ação e de suas articulações ( sats, mudanças de direção, diferentes qualidades de energia, variações de velocidade);
  • o dínamo-ritmo, a velocidade e intensidade que regulam o tempo (no sentido musical) de cada segmento. É a métrica da ação, o alternar-se de longas e curtas, de tônicas (acentuadas) e átonas;
  • a orquestração da relação entre as diferentes partes do corpo (mãos, braços, pernas, olhos, vozes, expressão facial)."

  • Stanislawski exigia que o ator tivesse uma linha de ação preparada. Essa linha devia ser a partitura das ações físicas, mas não simplesmente uma ação sem conteúdo, sem justificação interior. Como diz Arkidius Nikolaievich, um dos atores de Stanislawski: "em toda ação física que não seja puramente mecânica e sim justificada em nosso interior, se encontra a ação interna, que é a vivência. Desta maneira se criam duas plataformas:interna e externa e as duas se infiltram mutuamente."

    Portanto, o trabalho das ações físicas não se reduz a simples ações vazias. Entra aqui um jogo de uma série de propriedades do organismo de onde se liberam os impulsos que nascem das ações físicas e ao mesmo tempo as impulsionam.
    É um processo, onde há a participação simultânea de todas as forças intelectuais, emocionais, espirituais e físicas do organismo.
    Stanislawski dizia: "agarrem-se com mais força às ações físicas. Elas são as que lhes darão a liberdade e a genialidade artística da natureza criadora" (....) "as qualidades nascidas desta técnica têm que formar a base da arte de nosso teatro, diferenciando-o de todos os demais. É uma arte sublime. Porém, exige um constante trabalho de auto-aperfeiçoamento. De outro modo, corre o perigo de degenerar, de anular-se, um perigo muito mais imediato do que vocês mesmo supõem" (...) " O domínio da técnica deve ser patrimônio de todo o nosso organismo teatral, abarcar todos os seu atores e diretores. Nossa arte é uma arte coletiva. Não nos basta ter alguns intérpretes brilhantes em cada espetáculo.Temos que pensar, conceber o espetáculo como uma conjunção única e harmoniosa de todos os seu elementos, como uma obra de arte total" (...) " As bases desta técnica não pode ser transmitida nem oralmente nem por escrito. Tem que ser estudada na prática".

    Para Stanislawski, a arte está em constante desenvolvimento, em constante movimento e exige constante renovação, auto-aperfeiçoamento: " e recordem isto: de vez em quando ( quatro a cinco anos) todo ator talentoso e exigente tem que voltar a aprender o seu ofício a partir do zero. Há que procurar, dia após dia, elevar sua cultura artística.
    Ele mesmo, foi o grande exemplo desse estar em movimento, foi um incansável pesquisador da arte do ator. Sempre em busca da resposta do "com fazer?", "do como tocar o que não é tangível?". Cada descoberta foi etapa para outras descobertas, portanto, nunca cristalizadas por ele. O tão falado "método de Stanislawski" não pode trazer este conceito de fechado, fixado, o que levou muitas pessoas a reduzir e não avançar no aprofundamento de suas pesquisas e experimentações. Como diz Franco Rufini em "A Arte Secreta do Ator", de Eugênio Barba e Nicola Savarese: o "sistema de Stanislawski é um sistema, não o sistema" (...) "isso não exclui a existência teórica e metodológica, no trabalho do ator stanislawskiano, de um nível que ocorre antes da manifestação do sentido, um nível que existe anterior à expressão e que é uma condição parta ela. Esse nível é o pré-expressivo, do qual fala a antropologia teatral e é independente das escolhas poéticas e/ou estéticas do diretor".

    E termino com uma afirmação de Stanislawski ao falar sobre o sistema: "não se trata de "realismo" ou "naturalismo", mas de um processo indispensável para a nossa natureza criadora."

    Texto: Cristina Tolentino
    cristolenttino@yahoo.com.br

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