Escritora Doris Lessing diz que não sonha mais
 

Doris Lessing, que lançou o livro 'The Sweetest Dream'
 
A escritora Doris Lessing, uma das mais importantes autoras da língua inglesa do século 20, disse que não sonha mais. "Estou velha e azeda", ela brincou.

A frase é uma referência ao novo livro de Lessing, The Sweetest Dream, lançamento da editora Harper Collins que pode vir a ser publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

The Sweetest Dream toca em temas variados, como o fim do sonho comunista, AIDS, a liberação africana, idealismo e responsabilidade pessoal.

Avessa a entrevistas, Doris Lessing fez uma concessão e falou à BBC Brasil.
 
BBC - Seu último livro é intitulado The Sweetest Dream (em tradução literal, "O Sonho Mais Doce"). Você ainda sonha?
Doris Lessing - Não, não, estou muito velha e azeda. Não sonho mais (risos). Esse livro é sobre as utopias em que nós acreditávamos quando jovens. A palavra sonho é uma referência a isso. Quando eu era jovem, abre aspas, todo mundo, fecha aspas, era comunista. E é disso que estou falando. Do velho sonho comunista, que virou poeira.

Ouvi dizer que em partes da América do Sul ainda existem comunistas, o que acho um charme. É como se nada tivesse acontecido.

BBC - Existe um vínculo muito forte entre o Brasil e a África. Você sente, seja como escritora ou como pessoa, alguma atração pelo Brasil e pela cultura brasileira?
Lessing - Visitei o Brasil a convite do meu editor, um homem muito generoso, chamado Machado. Isso foi há uns dez ou doze anos atrás. Fui com meu filho, me diverti muito, adorei o país. Um dos meus livros, Ben in the World, é situado parcialmente no Brasil. Sim, tenho vínculos com o Brasil.

BBC - Já leu autores brasileiros?
Lessing - Li muitos. Quando visitei o Brasil ganhei de presente muitos romances brasileiros, que li e de que gostei muito. A literatura brasileira é muito saudável.

BBC - O Brasil perdeu Jorge Amado no ano passado...
Lessing - (Acenando com a cabeça, indicando que já sabia da morte do escritor.) Eu o admirava muito. Vi a casa dele. Nós pegamos um avião e eu vi a casa dele, o que foi ótimo. Eu admiro a literatura de vocês.

BBC - Como você se sentiu no dia 11 de setembro? Os acontecimentos mudam a forma como você vê o mundo agora?
Lessing - De maneira alguma. Não vejo por que 11 de setembro possa ser considerado pior do que outras coisas que aconteceram no mundo. Acho que existe um grande abismo entre as pessoas da minha geração e os outros. Quem vivenciou a Segunda Guerra Mundial sabe que 11 de setembro foi uma coisa terrível, mas não foi pior do que muitas outras coisas.

O que aconteceu à psicologia americana é muito interessante. Eles pareciam acreditar que eram imunes a esse tipo de ataque. Por isso estão tão chocados: descobriram que não são diferentes do resto de nós. Vivemos num mundo muito violento.

BBC - Há uma tendência no cinema hoje de se levar para as telas as vidas de grandes personalidades. Como se sentiria se Hollywood decidisse fazer um filme sobre você?
Lessing - Não me incomodo. Na verdade, depende do filme. Alguns filmes são feitos para satisfazer o ego do diretor, sem prestar qualquer serviço ao escritor. Mas não há nada que você possa fazer a respeito. São os ossos do ofício.

BBC - É quase inevitável que queiram fazer um filme sobre você...
Lessing - Vamos ver. Eu provavelmente não vou estar aqui. (risos) Nunca entendi as pessoas que dizem "Oh, meu Deus, quando eu morrer, o que vai acontecer com a minha reputação?"

As pessoas que dizem isso são na maioria ateus. Por que acham que vão se incomodar? Esse é um assunto muito interessante, que me fascina. A atitude das pessoas em relação à morte. São tão contraditórias.

BBC - Quem são seus autores favoritos hoje em dia?
Lessing - Não quero responder a essa pergunta.

BBC - Mas você pode nos dizer o que tem lido no momento?
Lessing - No momento, estou lendo Citizens, de Simon Schama, sobre a Revolução Francesa. Eu gosto muito de Schama, e o livro dele sobre a Holanda em seus tempos áureos ( The Embarrassment of Riches: An Interpretation of Dutch Culture in the Golden Age ) é muito bom.

Tenho lido muitas biografias recentemente.

BBC - Nada de ficção?
Lessing - Estou sempre lendo ficção, porque as editoras me mandam carregamentos de livros de outros escritores, querem minha opinião. Você tem de ler, quer você goste ou não. Gostei muito de Spies, de Michael Frayn. Acabou de sair, é um livrinho muito bom.

BBC - Entre as biografias, gostou de alguma em particular?
Lessing - Gosto muito de Hermine Lee. Ela escreveu ótimas biografias. E Claire Tomlin. Essa é uma era de grandes biógrafos neste país.

Mônica Vasconcelos
Fonte: BBC Brasil
06/03/2002

Doris Lessing ganha o Prêmio Nobel de Literatura de 2007

Voltar
Cadastre seu email para receber nossas novidades
Hospedagem | Cadastro | Email | (31) 3281.1196 | Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil | By: Caleidoscópio