Zuza Homem de Mello fala sobre a atual crise da música brasileira.
 
 
Autor de seis livros sobre música - entre eles A Era dos Festivais (2003) e Música nas Veias (2007), Zuza já comandou programas de rádio, nos quais selecionava a fina flor da MPB, e acompanhou de perto a realização dos famosos festivais da TV Record, nos anos 60. Zuza, que atualmente se dedica à curadoria de festivais e às pesquisas que transforma em livros, falou sobre a atual crise da música brasileira.

Sesc - Lendo seu livro Música nas Veias, é possível notar um universo de qualidade musical e a música como uma manifestação cultural das mais criativas. Saindo do livro, no rádio, em certos jornais, parece que esse mundo descrito por você não existe mais. Você sente isso também?

ZHM - Em parte você tem razão. Se você ligar o rádio, hoje em dia dá certo pânico mesmo. É muito raro haver uma programação feita por programadores de rádio. Geralmente, a programação é constituída de uma linha estabelecida pela própria emissora, que leva em conta fatores que não o da qualidade musical. Como muitas delas seguem esse mesmo modelo e preferem isso em vez de apostar em uma linha diferenciada, quem gosta de determinados gêneros musicais, quem tem essa sensibilidade musical, fica órfão.

No que diz respeito às rádios, há exceções, mas perto do que existe em uma cidade como São Paulo, em termos de atração cultural, eu acho que é muito pouco. Não existe uma emissora, hoje em dia, que eu saiba - posso estar enganado -, que se dedique a uma música popular brasileira independente. A minha formação musical, aquilo que eu ouvia quando era menino, é baseada no que se ouvia no rádio. Aquilo nos deu uma formação musical valiosíssima, ao passo que hoje eu acredito que a juventude esteja meio desorientada.

Sesc - O que você acha que mudou nos últimos 20 ou 30 anos?

ZHM - É precisamente isso. A cantora Rosa Passos é o exemplo de reconhecimento internacional. A revista The New Yorker trouxe uma matéria de duas páginas sobre ela. Eu não conheço nenhum outro artista brasileiro que tenha ocupado duas páginas dessa revista. Pode ter saído, mas eu não conheço. Agora, toca Rosa Passos no rádio? Não. Por que não toca? Primeiro, porque não há jabá (pagamento feito pelas gravadoras para que as rádios toquem determinadas músicas). Segundo, porque, se houver jabá, o cara da rádio vai alegar que o som dela não tem nada a ver com a programação dele etc. No entanto, a Rosa Passos fez uma temporada no Fecap em janeiro de 2007, e os ingressos se esgotaram. E foi um show maravilhoso.

A Rosa Passos é motivo de orgulho para a música popular brasileira. Ela foi incensada pelo Yo-Yo Ma (violoncelista norte-americano de origem chinesa), que a convidou para fazer uma temporada com ele pela Ásia e para participar dos dois discos da série Obrigado, Brazil - o de estúdio e o ao vivo. Isso não é para jogar fora! Há artigos sobre a Rosa Passos quando ela lança um disco etc., mas, veiculação mesmo, na televisão e no rádio, não tem.

Sesc - Você acha que o conhecimento sobre o assunto está, de certa maneira, ausente no universo profissional da crítica?

ZHM - Sem dúvida. Existe uma deficiência que você vê no uso de determinadas expressões musicais erroneamente. Por exemplo, as palavras uníssono e harmonia são, muitas vezes, empregadas dentro do texto e a pessoa não sabe bem o que significam. Confunde-se harmonia com melodia. Isso é uma boa. Eu me lembro de ter lido uma vez um cara confundindo acordeão com trombone. São coisas básicas para uma pessoa que se dedica a uma avaliação e que revelam nas entrelinhas o grau de conhecimento dessa pessoa. Quem comete esse tipo de erro não está capacitado a falar com propriedade sobre o que fala nem a escrever com propriedade sobre o que escreve.Outras vezes, você vê gente fazendo citações de trabalhos passados de um autor para mostrar uma erudição que lhes falta. É muito freqüente isso. Ou enchendo lingüiça com textos sobre a letra da música. Muito freqüente. Um jornalista percebe nitidamente quando o cara está enchendo lingüiça.

Sesc - De que forma você acha que isso pode ser prejudicial?

ZHM - Há uma quantidade bastante representativa de jovens que não quer saber disso, que sabe onde está o coringa. Mas a maioria não, a maioria ignora coisas básicas e acaba deixando de viver aquilo que de bom tem no presente. Não adianta você ter vivido no passado, ficar no passado. Você tem de viver o presente. Você tem de saber que há um determinado espetáculo, um determinado acontecimento que você deve ver agora. É como o jornal do dia. Não pode ser o do dia seguinte. Se você não estiver ligado, antenado, isso vai passar. E o que vai restar depois, quando você tiver uma idade avançada? Fica faltando essa bagagem.

Sesc - Durante anos você teve programa de rádio. Já escreveu sobre música, produziu espetáculos, discos. Além disso, ao mesmo tempo em que escrevia, montava um espetáculo de bossa nova, ou então levava novos nomes para as rádios. Por que essa multiatuação?

ZHM - O que eu vejo, olhando para trás agora, é que essas áreas foram se abrindo, uma em conseqüência da outra. Uma gerou outra. Por exemplo, o programa de rádio nasceu no dia em que fui levar meu primeiro livro para o Tuta (Antonio Augusto Amaral de Carvalho, atual diretor-presidente da Rádio Jovem Pan). Eu fui lá só para dar de presente a ele, não fui perguntar se tinha programa para fazer. Ele me perguntou: "Você não quer fazer um programa?". Conversa vai, e saiu o programa. Depois de um ano, um cara que trabalhava no Estadão, esqueci o nome, me falou: "Zuza, você não gostaria de escrever no Estadão?" Do programa da Jovem Pan abriu-se o Estadão. É verdade que eu já tinha escrito em jornal antes. Eu comecei na Folha de S.Paulo, em 1956.

Sesc - Você acha que o caminho para a divulgação da boa música acabam sendo os espetáculos hoje em dia?

ZHM - Exatamente. Para você conhecer um grande valor da música popular brasileira, tem de saber onde ele vai se apresentar e ir atrás. É a forma que, aliás, vem ao encontro do fato de que o CD já não é mais o caminho mais lucrativo para o próprio artista. Atualmente ele concentra sua atividade no espetáculo. Porque lá cada um paga o ingresso, assiste e vai embora. O dinheiro entra, o CD não garante nada.

Sesc - Pelo preço proibitivo do CD na maioria dos casos?

ZHM - O CD foi criado em 1982. Eu estava na feira de Tóquio, fui exatamente quando foi lançado o CD. Fiz uma reportagem para a Rádio Jovem Pan. De 1982 até agora se ganharam rios de dinheiro, porque o CD deveria ser vendido a um preço em torno de, no máximo, 5 dólares. Você imagina quanto eles ganharam! Se você considerar o que se gasta, em termos de fabricação de um CD, é ridículo. São centavos!

Sesc - Mas a que você credita esse aumento no preço dos CDs?

ZHM - Há uma coisa importante: no marketing você tem de saber o que está vendendo. Se você não souber qual é o seu produto, você se dá mal. E o produto da indústria do disco é a música. Quem tem de saber o que deve ser gravado, quem deve ser gravado, é alguém que entenda de música. Não é um cara que antes teve uma fábrica de sabonetes de sucesso espetacular e que triplicou a lucratividade.

Se ele for para a música, a "mercadoria" com a qual ele vai lidar é bem diferente do sabonete, é música. A avaliação feita pelo público que consome discos é diferente. É uma avaliação sobre uma arte, sobre uma coisa que toca a sensibilidade. O sabonete não toca a sensibilidade - estou aqui falando de sabonete, mas poderia ser, sei lá, sapato, qualquer coisa. Esse domínio da área das empresas acabou com a música. Se você pega as gravadoras antigas, tudo era com música.

Os diretores eram todos ligados à música ou eram ex-músicos ou ex-compositores. Pega, por exemplo, a Capitol Records, que foi uma gravadora que se lançou no mercado na época da guerra (Segunda Guerra Mundial). Qual foi o trunfo da Capitol? Era de um cara ligado à venda de discos, de um compositor, e de um outro também ligado à música. A Capitol estourou.


11/11/2008 - Trechos da entrevista concedida por Zuza à Revista E, www.sescsp.org.br

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