



Mestre em Belas Artes pela North State University, Estados Unidos, a artista norte-americana Mary Dritschel, é conhecida pelas suas instalações. Ao longo de sua carreira participou de exposições coletivas e individuais no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Mary, foi a artista convidada do mês de julho, para trabalhar no Atelier de Gravura que foi de Iberê Camargo. “Estava apavorada, pois há mais de 30 anos não fazia gravura”, conta. A artista estava em Porto Alegre, participando da programação do 21° Festival de Arte Cidade de Porto Alegre, em que ministrou Oficina e palestra.
Quando iniciou o trabalho da senhora com instalações?As instalações surgiram na minha vida em 1974, quando estava concluindo minha pesquisa de mestrado. Naquela época era uma área relativamente nova, que desbravei ao começar a experimentar as formas e os diferentes materiais, como metáforas para minha expressão. Os materiais que uso sempre foram comuns e práticos, nada muito caro, pois nunca tive dinheiro sobrando para isso. Nunca esqueço do momento que os meus olhos abriram para a instalação. Foi através de uma exposição do Robert Storr, curador da Bienal de Veneza, no MoMA. Para mim, quando algo está no MoMA é como uma bíblia, é como uma palavra de Deus.
Palavras e frases são presentes no seu trabalho. Qual a mensagem que a senhora pretende passar com o uso dessas referências?As palavras me inspiram. Muitas vezes só inicio uma obra, após ler uma frase que me chamou a atenção. O material de fonte varia de referências diversas como a Bíblia, uma enciclopédia, Shakespeare, e assim por diante. No meu trabalho, a palavra e a imagem compartilham de igual importância, e o material age como uma metáfora para reforçar o significado. O uso da palavra é como uma ironia bem humorada, com uma mensagem crítica e forte. A forma como intitulo os meus trabalhos, por exemplo, indica como eu quero que o público o veja. Eles podem apreciar o que estou dizendo, mas sem deixar de ter sua interpretação pessoal. Eu adoro quando alguém vem me falar que viu algo na obra, que não era o que eu tinha visto quando produzi. Isso siginifica que estou conseguindo abrir a mente das pessoas, incentivando o uso da imaginação.
Fale um pouco sobre as referências feministas também marcantes em sua obra.Quando comecei, na década de 70, já não era uma menina. Neste período, participei de grupos que trabalhavam direto com esta temática. Com isso, fiz muitos trabalhos e comentários sobre o problema da mulher nos EUA, que é marcante em todos os meios. Mesmo na arte, o homem ainda tem mais espaço do que a mulher. Por isso, muito dos meus trabalhos procuram mostrar a condição feminina, seu corpo e suas circunstâncias, sempre com extrema objetividade. Ao mesmo tempo, o tom de humor e ironia, reflete a crítica que tento trazer na obra.
De 1978 a 1986 a senhora morou no Brasil. Como foi este período?Foi uma época maravilhosa para minha produção. Ministrava aulas na USP, participava das Bienais de São Paulo e de diversas exposições. Meu trabalho artístico ampliou muito por causa disso. Também tive muita sorte, pois fiz ótimas amizades, algumas que mantenho até hoje, como a Regina Silveira. Aqui eu tinha muito mais liberdade para trabalhar, do que nos EUA. Lá eu precisava jogar muito com a questão do tempo, pois não podia me dedicar integralmente a arte. Foi difícil. Até hoje, não consigo produzir como produzia no Brasil, durante a época que morava aqui. Mas, ainda tenho muita energia e faço muitas exposições.
Entre tantas obras produzidas ao longo desses 30 anos, quais as mais marcantes para a senhora? O que destacaria em seu traballho?São tantas! Encontramos referência da água na Water, water, everywhere and not a drop to drink. Como falei antes, os títulos das obras estão diretamente ligados ao que pretendo passar ao expectador. Neste caso: água, água, em toda parte sem uma gota a beber. Produzi em 1995, com duas folhas de tela da fibra de vidro e com a palavra água em 20 línguas, para questionar o abuso de nosso recurso mais precioso.
A água também está presente na obra Chicago Specimens (Water and Air), de 1995, que combina a idéia e o material de dois ambientes distantes. Enchi os saquinhos plásticos com água e acrescentei numerosos fragmentos de informações sobre o rio de Chicago e o lago Michigan. O azul dos pinos do mapa e o vermelho do selo no saco plástico são as cores da bandeira da cidade. Os textos são uma consulta aos perigos ambientais do ar urbano.
The Eye of the Goddess, de 1992, que fiz quando estava em Porto Alegre (RS), no quarto do hotel onde estava hospedada. Trago cuias de chimarrão, 33 placas da porcelana, lenços de papel, que forma um triângulo. Acho muito parecido com o leito de uma noiva.
Gosto muito da obra Painting Off The Wall, de 1983, que foi para a XVII São Paulo Bienal, em que proponho formas de pintar fora da parede, através de pequenas caixas. Signal, de 2002, também é importante para mim. Trata-se de uma instalação que molda a paisagem dentro da grade da janela, com símbolos alquimistas para os quatro elementos, estampados com uma fita adesiva sinalizadora de perigo, dividindo ordenadamente o ar, a água e a terra, como uma metáfora aos perigos ambientais.
Como a senhora está encarando o trabalho no Atelier de Gravura do Ibere Camargo?Estou muito feliz com esta oportunidade. Foi um grande desafio, pois não fazia gravura há mais de 30 anos. No início estava um pouco apavorada, mas tive o apoio da equipe da Fundação e logo comecei a desenhar.

