Caetano Veloso volta a polemizar com Lula
 
 
Caetano Veloso volta ao Rio com seu show "Zii e Zie", nesta sexta-feira e sábado (dia 27 e 28 de novembro de 2009), no Vivo Rio, marcado pela polêmica declaração sobre a falta de formação intelectual do presidente Lula . O artista, que desde então passou a ser hostilizado por alguns segmentos petistas, alega que apenas reafirmou o óbvio, que sempre foi usado até para enaltecer a trajetória de Lula, e reclama da posição, para ele antidemocrática, dos que rejeitam qualquer tipo de crítica à figura do presidente.

Essa não é a primeira e certamente não será a última polêmica em que o compositor se envolve. Nesta entrevista, Caetano faz um balanço da sua obra e, quase num desabafo, diz que sempre foi mais criticado do que elogiado:

- Os elogios que recebo, em geral, são bastante envergonhados.

Leia abaixo trechos da entrevista publicada esta quinta-feira no Segundo Caderno do GLOBO:

Você é um dos compositores mais gravados no Brasil. Quem ainda não o gravou que você gostaria que gravasse?

CAETANO VELOSO: Rapaz, não sei... Zeca Pagodinho.

A maioria dos compositores não gosta de revelar suas musas inspiradoras. Isso já criou equívocos, com pessoas achando que a música era para elas, e não era. Por que esse mistério?

CAETANO: Não é sempre assim, não. Há muitas canções minhas que eu fiz para determinadas pessoas e disse de público. Às vezes, botei na própria contracapa do disco uma dedicatória, como "Trem das cores", que fiz para Sônia Braga. A música "Vera Gata", todo mundo sabe que foi para a Vera Zimmermann; "Rapte-me, camaleoa" eu fiz para a Regina Casé. Eu disse para as pessoas que era para a Regina; "Leãozinho", eu fiz para o Dadi e disse; "Menino do Rio", eu fiz para o Petit. Eu não disse oficialmente, mas todo mundo sabe. Petit era um menino aqui do Rio, surfista, uma figura bem típica da cidade, quase simbólica, e era meu amigo. Eu fiz a música inspirado nele e disse isso depois. Não escondo, em geral. Mas tem coisas que a gente não fala. E músicas que são resultado de uma composição de figuras. Por exemplo: "Tigresa" tem muito da Sônia Braga, mas talvez tenha mais da Zezé Motta; tem de algumas mulheres cujos nomes nem sei, mas que eu via naquela altura, no Dancin' Days, na noite...

Quem, até hoje, é seu maior parceiro musical?

CAETANO: Talvez tenha sido Gil. Tem um período em que fiz umas músicas com Torquato, tenho algumas coisas com o Waly Salomão, outras com Capinam, mas a maioria das minhas canções, eu fiz sozinho. Tem música com letra de Bethânia, tenho algumas pessoas de quem não estou lembrando agora.

Política não é um tema forte na sua obra, mas é nos seus discursos e entrevistas. Existem alguns trabalhos seus, posteriores à ditadura, que reportam à política. A ditadura não o inspirava?

CAETANO: Olha, a vida era difícil sob a ditadura. Não gosto daquele negócio. Sofri muito. Fui preso, fui exilado, foi ruim à beça. E houve também censura ou tentativa de se organizar uma censura da criação artística. Houve censura da imprensa. Mas a produção musical, e também cinematográfica, no Brasil, nesse período, foi muito rica, muito bonita. E esse negócio de não haver canções de política não é muito correto, porque, mesmo no período do Tropicalismo, tem canções como "Enquanto seu lobo não vem", "Divino maravilhoso", que são diretamente políticas, até um pouco explícitas demais, mais do que muitas canções consideradas de protesto. E mesmo agora, no disco novo, há menção direta a Lula e FH, na canção "Lapa", que é uma canção muito política, não é nem questão social, é Política com P maiúsculo. Porque tem o nome de Lula e de FH, de maneira elogiosa. E, por outro lado, tem a "Base de Guantánamo", que é uma canção de protesto pelo desrespeito aos direitos humanos praticado pelos Estados Unidos em solo cubano.

Você é uma pessoa exaltada?

CAETANO: Não. Se tiver um tema que me apaixone, eu sou muito veemente. Mas não sou, em geral, exaltado. Passo 90% do tempo de maneira branda, serena.

E essa sua relação de amor e ódio com a mídia?

CAETANO: Eu acho mais ou menos natural, porque eu terminei me tornando famoso e numa área que eu não esperava. Foi tudo meio surpreendente para mim. Eu não queria fazer música popular, porque não me achava com talento suficiente para isso. Mas colaborava com meus amigos que faziam. E, como eu conhecia muito o assunto, e era capaz de fazer algumas coisas relativamente relevantes, fui fazendo. A Bethânia foi chamada para substituir a Nara Leão no "Opinião", cantou a música "É de manhã", botou no disco do outro lado do "Carcará", a música fez um grande sucesso no espetáculo. Aí o Simonal já gravou ("É de manhã") - foi o primeiro, depois de Bethânia -, e depois a Elizeth Cardoso também. Então, eu me senti assim, já existindo no mundo da música popular. O Edu Lobo, o Francis Hime, o pessoal daqui do Rio que me conheceu através dessa canção gostou de mim imediatamente, me acolheu, como um par. Eu sou grato, sobretudo ao Edu, porque ele, além de ter um talento musical infinitamente superior ao meu, era o grande nome da música popular no Brasil naquela época. E me acolheu como um igual, tendo ouvido uma ou duas canções apenas. É incrível! E depois, por causa do Tropicalismo, que era uma outra virada que a gente queria dar, eu fiquei ainda mais... - como é que se diz? - observado pela opinião pública, pelo público, e pela imprensa em particular. Mas o Edu ficou zangado comigo por causa do Tropicalismo.

As críticas não o incomodam?

CAETANO: Eu não me incomodo, por exemplo, que esteja todo mundo me xingando porque eu disse que Lula fala como um analfabeto, como se fosse uma novidade. Não me incomodo que um monte de gente esteja me xingando, porque eu não quero a aprovação de todo mundo. Eu acho que querer a aprovação de todo mundo é péssimo. Isso é um problema. Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior. Nesse ponto, eu nem me incomodo de o jornal ter distorcido o que eu disse, botando, na primeira página, como se eu tivesse querido agredir o Lula e compará-lo com Marina. Eu estava comparando Marina com Lula e com Obama. Como Lula, ela é de origem humilde etc; como Obama - e diferentemente de Lula -, ela escreve bem, fala bem. Lula, de fato, usa metáforas cafonas, linguagem grosseira e erra a gramática do português, a norma culta. Todo mundo sabe que é assim. Os linguistas aplaudem, o povo acha bom, eu também acho bom, eu votei em Lula chorando, para se eleger - não para se reeleger. Eu chorei dentro da cabine. Chorei de emoção. Pode ser que eu chore quando vir esse filme, porque eu chorei vendo "2 filhos de Francisco" e possivelmente chorarei vendo "Lula, o filho do Brasil". Mas talvez não chore tanto quanto chorei no dia em que votei em Lula para presidente.

As pessoas que discordam de suas posições políticas ressalvam a sua qualidade de artista. Isso cheira a unanimidade?

CAETANO: Não, não concordo, mesmo porque não vejo isso. Recentemente li coisas sérias contra mim como artista, coisas escritas por pessoas informadas, que conhecem meu trabalho, conhecem os outros trabalhos. Eu li quando saiu "Zii e Zie", não só de críticos que escrevem em jornal, como desses mais intelectuais, que escrevem em revistas culturais...


Revista Bravo

Voltar
 
Cadastre seu email para receber nossas novidades
Hospedagem | Cadastro | Email | (31) 3281.1196 | Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil | By: Caleidoscópio