Inventor de uma das técnicas mais inovadoras de tocar guitarra, “o tapping” ou “toque”, o músico Stanley Jordan esteve no Palácio das Artes, no dia 15 de dezembro de 2006, para mostrar seu som repleto de jazz e bossa nova. Acompanhado pelos músicos brasileiros Edu Lima (baixo e contrabaixo) e Mamão (bateria), Jordan tecla a guitarra com muita habilidade e presteza; sua técnica de tocar com as duas mãos no braço do instrumento foi desenvolvida a partir de estudos de piano. Das canções do repertório, “Wave” e “Insensatez” fizeram o público empolgar, comprovando a admiração pela técnica musical do jazzista.
Das ruas de Nova Iorque, onde se apresentava no início da década de 1980, para o estrelato do universo do jazz, Jordan passeia por diversos estilos. Integrou um time de músicos que se reuniu em um tributo a Jimi Hendrix (1942-1970) e seus últimos trabalhos abordam musicoterapia. Em entrevista Stanley Jordan conta um pouco sobre sua carreira, suas influências e mais recentes trabalhos.
Você toca com músicos brasileiros e apresenta canções da MPB. O que tem de Brasil no seu trabalho?
A primeira vez que toquei no Brasil foi há mais ou menos 20 anos, mas mesmo antes disso, eu amava música brasileira que era na maior parte bossa nova, que os jazzistas tocavam. Basicamente, como um jazzista, tive que aprender músicas de Tom Jobim, e isso foi uma importante parte da minha formação musical. Na verdade, quando comecei a tocar no Brasil, pude conhecer mais sobre outros tipos de música. É um campo muito vasto. A música brasileira é um tesouro. Tive a oportunidade de ouvir maracatu, macumba e outros ritmos diferentes. Na apresentação há algumas músicas brasileiras, mas gostaria de ir além.
Em Belo Horizonte, você tocou para pacientes no Hospital da Baleia. Essa sua iniciativa está relacionado aos seus trabalhos recentes com musicoterapia, mais especificamente com seu CD “Relaxing music for difficult situation” (Música relaxante para situações difíceis)?
Sim, visitar hospitais é uma coisa que gosto de ter na minha agenda de viagens. De certa forma, não é tão fácil porque “parte o coração” ver situações difíceis com que as pessoas têm que lidar; mas, por outro lado, é ótimo poder levar a eles um presente inesperado. Eu tenho estudado musicoterapia ao longo dos últimos cinco anos, e é um conhecimento muito importante para mim. Uma das coisas que estou aprendendo é como a música pode ajudar no processo de cura. Há muitos estudos científicos sobre isso. Mas mesmo se você não conhece todas essas coisas, você pode levar música a quem precisa. A qualquer momento você pode levar felicidade e, assim, ajudar no processo de cura.
Essa é uma das funções da música, na sua opinião?
Sim, acho que é uma das razões porque nós gostamos tanto de música. É difícil achar alguém que não goste de música. É como se fosse um “alimento”.
Você tem educação formal. Mas também se apresentou nas ruas de Nova Iorque. Como essa mistura influenciou sua música?
Quanto à parte da educação, eu procuro fazer da melhor maneira possível, estou sempre aprendendo sobre música. É uma ocupação para a vida toda. Mas, em relação a trabalhar com música, construir a minha vida e sobreviver de música, nem sempre foi fácil. Quando realmente dependia de tocar nas ruas para ter uma renda, sinto que fui muito feliz de ter sido capaz de fazer isso, porque havia muitas coisas que eu estava tentando fazer, mas que não estavam disponíveis para mim ainda.
De certa forma, não me importava, porque eu abria o estojo da minha guitarra e tocava para as pessoas que estavam ali. Eu acho que muito das idéias que tenho sobre o que é a música das ruas veio daqueles dias, porque eu estava aprendendo nas ruas, voltando para coneitos básicos. E, em termos convencionais, eu pensava: eu faço música, as pessoas gostam de música, como posso levar essa música às pessoas? E elas estão aqui… Eu sinto que fui capaz de desenvolver outras possibilidades depois daquela experiência. Eu aprendi que posso tocar diferentes tipos de música e para diferentes tipos de pessoas. Se eu me focar de acordo com a indústria musical, posso me limitar e achar que sou apenas um cara do jazz e tocar só em casas de jazz e para uma platéia fã de jazz. Mas, eu percebi que música é para todo mundo.
“Magic Touch” é o seu primeiro álbum, lançado em 1985. O que mudou no seu trabalho desde então?
Isso foi há muito tempo. Muita coisa mudou. Na época em que estava fazendo esse álbum, um das coisas em que focava muito era tocar a guitarra mais expressivamente: fazer da guitarra quase uma voz humana, aprender todos os detalhezinhos de como aproximar da emoção. Sinto que muito das coisas que vinha trabalhando eu atingi agora. De certa forma, é mais fácil fazer o que eu quero agora, porque naquela época ainda estava muito ligado em harmonia, que, por si só, é uma coisa muito grande e traz muitas possibilidades. E isso não significa muito a não ser que tenha a emoção por trás. E é ai que toda as combinações nascem.
Seu último trabalho é de 2004, “Dreams of Peace”, certo? Está trabalhando em um novo projeto?
Sim, de fato, assim que terminar essa turnê, vou descansar um pouco e passar uma temporada no Brasil, ficar em um lugar tranqüilo, onde possa compor para meu próximo CD, que será lançado em 2007. Moro no Arizona, um local com grande riqueza natural, o que me traz inspirações. Ás vezes, gosto de ir a lugares especiais e isso é um ingrediente para boa música. Pessoas podem ouvir uma nota e não saber exatamente de onde essa nota vem, e em algum lugar naquela nota está a inspiração que eu senti. E isso é muito importante para mim.
Você já veio várias vezes ao Brasil. Como você se sente tocando em um país da América Latina?
Tocar aqui é um grande prazer. Quando era uma criança não fazia idéia de que algum dia viria a fazer isso. Eu entrei para a música só porque adorava tocar e compor e não imaginava que a música era também uma espécie de “ingresso” para explorar o mundo. Uma das razões da minha presença constante aqui, obviamente, é que eu adoro os brasileiros, e adoro o jeito de como as pessoas apreciam música. O Brasil é naturalmente um país musical, porque há muitas culturas diferentes reunidas. E isso é uma receita para criatividade. É fácil de entender porque há tanta música de qualidade aqui.
Ludmila Rodrigues
Foto: Paulo Lacerda
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