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Milton Nascimento

Milton Nascimento: "O Clube da Esquina era um retrato do Brasil"


Cantor avalia os motivos que fizeram o disco ser tão notável


Muito bem-humorado e lembrando casos que envolveram a produção do disco antológico, Bituca está envolto não só com as comemorações das quatro décadas do Clube da Esquina, como também dos 45 anos de Travessia. “Não sei como a gente vai fazer, mas com certeza temos que trabalhar nesses dois projetos. No caso de Travessia, vamos fazer shows não só no Brasil, como na Europa, América Latina a partir de abril (2012)”, anuncia.

Para Milton, o LP duplo lançado em 1972 é uma verdadeira celebração da amizade, sentimento que sempre norteou sua vida e a dos demais clubistas. Revela que não foi fácil convencer os executivos da Odeon a produzir um disco que, além dele, trazia um compositor até então desconhecido, Lô Borges. Graças a um dos produtores da gravadora, Adail Lessa, o projeto vingou. “O pessoal não queria fazer e o Adail foi lá e disse: ‘Esses meninos não são malucos não. É bom vocês deixarem que eles façam o que quiserem’”, lembra o cantor e compositor, que define o disco como “um retrato do Brasil”. Confira os principais trechos da entrevista.

Na sua opinião, por que o disco é tão notável?

A gente tinha uma turma de músicos, principalmente de BH, que ouvia de tudo e misturava cinema, livro, mil coisas e vários tipos de música, sem preconceito nenhum. O pessoal de Belo Horizonte sempre foi muito aberto às coisas como rock’n’ roll, jazz, bossa nova, samba, e aí foi fácil para a gente reunir o pessoal e fazer o disco. Nessa época, a pessoa mais chegada a mim, em termos de música, era o Lô Borges. Então fui à Odeon e falei com eles que queria fazer um disco duplo com um rapaz que eles não conheciam. E foi um negócio até meio chato, porque eles não queriam deixar. Falaram: “Onde já se viu fazer um disco duplo com uma pessoa que ninguém conhece?”. E eu retruquei: “Tudo bem, se vocês não quiserem, procuro outra gravadora”. Nessa época existia um homem que poucas pessoas conhecem, mas ainda vou escrever algo sobre ele: Adail Lessa (produtor). Ele foi responsável por várias coisas. Por exemplo, a bossa nova. O pessoal da Odeon não queria fazer um disco com João Gilberto, Tom Jobim etc. e ele fazia parte da diretoria e marcou uma gravação com a orquestra de madrugada. Gravaram e aí foi isso que aconteceu: está no mundo inteiro. E com a gente também foi isso. O pessoal não queria fazer e ele foi lá e disse: “Esses meninos não são malucos não. É bom vocês deixarem que eles façam o que quiserem”. Infelizmente ele morreu, mas foi fundamental para muitas coisas, para muita gente.

Você acredita que o disco foi um divisor de águas na carreira dos músicos?

Foi um marco na carreira de todo mundo. Porque, se você for pegar o nome das pessoas que estão ali, é uma loucura. Todo mundo era quase desconhecido, ótimos músicos e em matéria de letras, ninguém estava acostumado a fazer aquilo que estava acontecendo. Então, foi um negócio assim: que eu nem sei denominar. Foi muito forte e está no mundo inteiro. Continua em vários países, o pessoal a fazer comentários, a gravar, a falar, ouvir. Continua sendo um retrato do Brasil. Nos Estados Unidos, Europa, Japão, tem acontecido, desde que saiu o disco, de o pessoal vir a Belo Horizonte para conhecer o Clube da Esquina. Mesmo explicando que não era um clube, que era um lugar numa esquina de duas ruas de Belo Horizonte, em que o pessoal se reunia. Mas eles querem vir para o Brasil e conhecer esse tal Clube da Esquina. Acham que tem uma sede e tal. É engraçado. Nem adianta a gente querer explicar. A rapaziada se reunia ali naquele encontro das ruas e, de repente, se junta para fazer um disco e acontece tudo isso. Então é realmente muito forte!

O que marcou você durante as gravações nos estúdios da Odeon?

O Clube da Esquina não foi feito só com mineiros. Tem o pessoal do Rio, gente do Nordeste, de Minas, claro, a maioria. E quando surgia uma música, de repente, já estava pronto um arranjo ou a gente chamava uma pessoa para cantar, fazer coros, chamava orquestra. Teve uma participação, por exemplo, do maestro Eumir Deodato, que naquela época estava morando nos Estados Unidos. E a gente mandou algumas partituras para ele e ele fez alguns arranjos para o disco. Ou, às vezes, os arranjos surgiam no estúdio mesmo. Então, nem sei que nome se dá a isso. Algo até meio mágico. Totalmente! O pessoal dos outros países se baseia e se inspira muito no meu violão, no meu jeito de fazer música, no jeito de o Toninho Horta tocar e fazer música. Do Beto, do Lô. Então a gente continua influenciando e ensinando coisas para pessoas que a gente pensava que iam ensinar para a gente. Mas, a coisa mais marcante é que naquela época só existiam dois canais de gravação. Aí você vê um disco como aquele. Tem horas que tem quatro vozes minhas, 10 vozes de fulano e orquestra, e quando você conta que foram apenas dois canais de gravação as pessoas ficam maravilhadas. E falam: “Não acreditamos”. Mas acreditam sim (risos). É a coisa mais marcante da gravação desse disco.

O disco foi uma celebração da amizade?

Sem dúvida isso aconteceu. A amizade é algo que norteia a minha vida inteira. Vou falar de mim, mas dos outros também. A minha família é baseada na amizade. Quando era pequeno, ouvia alguns papos dos meus pais, falando que precisavam ajudar alguma pessoa, e estavam sempre com a porta aberta. Geralmente, nessas cidades do interior, as mães não gostam que as crianças vão para a casa dos vizinhos, porque vão sujar, fazer isso e aquilo. E na minha casa era completamente diferente. Meus pais faziam questão de as crianças irem lá para casa. Era muita criança e elas faziam o que quisessem. Comiam chocolate na hora do lanche. E a criançada toda apaixonada pela minha casa, pela minha mãe. Fui criado na amizade. Para mim, a coisa mais importante na vida é a amizade. E o Clube da Esquina é isso.

Qual a importância de Belo Horizonte na sua formação musical?

Em Três Pontas, eu, Wagner Tiso e a nossa turminha ficávamos ouvindo rádios e quando me mudei para BH fiquei conhecendo novos músicos. Ouvia o pessoal de Belo Horizonte tocar e pensava: “Nossa, estou fazendo tudo errado! Vou ter que aprender tudo de novo”. Mas os próprios músicos de Belo Horizonte me falaram: “Não, não mexe nas coisas que você faz porque isso não tem em nenhum lugar do mundo. Ninguém faz isso”. Mais um exemplo da amizade. Ela está sempre presente na minha vida. E eles me dando muita força, os amigos de BH me dando muita força, sempre!

O que você acha dos projetos de resgate e preservação do Clube, incluindo o museu?

Acho isso muito legal. Como os canais do Clube da Esquina estão abertos em vários países, para vários músicos, temos que manter assim. A gente daqui tem que contribuir com isso. Tem um movimento e acho que temos que preservar essa história. Somos amigos até hoje. Eu, por exemplo, tenho feito muitos shows com o Lô e feito músicas com o Beto, o filho do Beto (Gabriel), e com um monte de gente. Aí não tem jeito de o Clube da Esquina parar.

Você como líder do grupo pretende mobilizar os outros músicos para comemorar os 40 anos?

Este ano faz 45 anos de Travessia e a gente já está com um projeto para sair pelo Brasil e ao mesmo tempo tem os 40 anos do Clube. Não sei como a gente vai fazer, mas com certeza temos que trabalhar nesses dois projetos. No caso de Travessia, vamos fazer muitos shows não só no Brasil, como na Europa, América Latina, a partir de abril. Os ensaios para essa turnê começam agora, em março, em Juiz de Fora. (Em Belo Horizonte, o cantor faz show em 27 de abril de 2012, no Palácio das Artes. Os ingressos vão custar R$ 60 e R$ 30.)


Redação - EM Cultura
Jornal Estado de Minas - 18 de março/2012


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