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Maquinado

Chico Buarque lança cd de inéditas


Com 10 faixas, CD é sucesso de pré-vendas na internet e o primeiro depois de cinco anos afastado dos microfones para escrever o livro "Leite derramado".


Julho/2011
Artista: Chico Buarque
CD: "CHICO"
Gravadora: Biscoito Fino
Preço médio: R$29,90

Ailton Magioli - EM Cultura

Cumprindo o ritual que há mais de 20 anos o leva a se alternar entre música e literatura, Chico Buarque manda para as lojas, dia 22, o esperado disco de inéditas Chico sem saber se fará shows de lançamento. “Não se trata de algo mecânico, mas de obedecer às minhas próprias necessidades diante do cansaço”, esclarece o cantor e compositor. Depois de Carioca (2006), ele deixou de compor para escrever o romance Leite derramado, lançado em 2009.

Em entrevista restrita à imprensa no site www.chicobastidores.com.br, exclusivamente criado para a pré-venda do novo CD, Chico revela que, depois da turnê de Carioca e de lançar Leite derramado, a única música que ele tinha era Sou eu. Fez a “letra monstro” dessa parceria com Ivan Lins para marcar território. “Desde então me desliguei”, conta. A parceria com Ivan acabou sendo o ponto de partida para o novo trabalho. “Foi preciso dar um tempo para a música me aceitar de volta”, explica. O processo de criação de melodias e harmonias inclui piano e violão.

A valsa russa Nina, em que Chico lança mão de mais uma de suas inseparáveis musas inspiradoras, foi a pioneira da nova safra. “A partir da primeira, uma puxa a outra”, ressalta. De repente, ele se viu diante de nove composições, número suficiente para gravar um disco.

O processo de composição segue um ritual desde que o violonista Luiz Cláudio Ramos se tornou arranjador, diretor e produtor musical de seus trabalhos, a partir de Paratodos (1993). “Trabalhar com Chico é um prazer e uma responsabilidade muito grandes”, afirma o maestro, admitindo que, apesar de superafável como pessoa, o peso do cantor e compositor no mercado da MPB acaba se tornando sinônimo de exigência, também muito grande. “Aos poucos ele foi me mandando as canções, alternadamente. Quando atingimos seis, sete, começamos a ensaiar no estúdio aqui de casa”, conta o violonista. “Na casa dele, a cobrança foi menor. Fazíamos o nosso horário, sem pressão e taxímetro”, diverte-se o próprio Chico, explicando que, na hora de gravar, estava tudo pronto. “Entrava em estúdio consciente do que era cada faixa, com a base pronta”, salienta.

“Todos os meus discos são de autor”, diz, orgulhoso, Chico Buarque. Para ele, as pessoas (à exceção do público feminino, naturalmente) jamais vão a um show seu esperando grande performance. “Sou um compositor que canta”, define-se. Desta vez, antes mesmo dos ensaios na casa do maestro Luiz Cláudio Ramos, ele pôde amadurecer cada composição. Enquanto os músicos ensaiavam, Chico tocava seu violão. “Ficava lá para isso, na função do violão de compositor”, explica. Ele se diz dono de “um violão sujo”, à la Nelson Cavaquinho. “Se tivesse nas mãos a habilidade que tenho nos pés, seria um Paco de Lucia”, brinca ele.

Na rede As 7 mil pessoas que até quarta-feira, segundo a gravadora Biscoito Fino, haviam adquirido Chico no sistema de pré-venda – mantido no site www.chicobastidores.com.br –, receberão o CD nos próximos dias. A entrega já começou, via Correios. A tiragem inicial de 25 mil cópias de Chico foi dobrada no terceiro dia de vendas pelo site, informa a gravadora.

Além do ineditismo no Brasil, a iniciativa provou ser um sucesso até para um artista como Chico Buarque, cujo apelo popular é limitado se comparado a ídolos do axé e do sertanejo. Além de receber o disco em casa, o internauta ganha senha individual, que dá acesso a arquivos exclusivos, tais como clipes de faixas. Hoje, por exemplo, será a vez de Sou eu, que ele gravou com Wilson das Neves. Amanhã, de Barafunda, seguida de Sinhá, com João Bosco, na segunda-feira. O produto final será o documentário Dia voa, exibido exclusivamente no site terça-feira, dia 19 de julho.

FALA CHICO

Faixa a faixa

Querido diário
“Acho que estava tudo pronto para a décima música do disco aparecer. Exatamente esta, que agora o abre. Ela já estava na minha cabeça porque foi feita, originalmente, para duas das minhas netas (Lua e Lia). Era um coco que virou moda de viola. Aconteceu o mesmo com a valsa A ostra e o vento, que fiz para Chiquinho, meu primeiro neto.”

Rubato
“Jorge Helder, com quem já havia feito Bolero blues, é um compositor muito peculiar. Trata-se de uma marchinha de carnaval.”

Essa pequena
“É tipo um blues, a informação que tenho da música americana, que era o que eu gostava antes da bossa nova e de João Gilberto. Na época, queria ser baterista de jazz.”

Tipo um baião
“Baião-canção que acaba se transformando em um baião.”

Se eu soubesse
“Thais Gulin é a convidada, naturalmente. Era do disco dela, que eu havia feito. Como também não posso desperdiçar música, gravei uma versão mais parecida com a do autor. No disco dela a levada é mais solta, aqui é um choro-canção.”

Sem você 2
“É uma canção de amor. São as que os músicos mais gostam. Ela nasceu de Sem você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, de que gosto desde sempre e gravei com o Tom no songbook dele.”

Sou eu
“Ivan Lins e Diogo Nogueira gravaram muito bem. Agora chegou a vez do autor. Samba de gafieira que ganhou colorido novo na divisão e variações melódicas de Wilson das Neves, o meu convidado.”

Nina
“A valsa russa por meio da qual voltei a compor depois do livro Leite derramado.”

Barafunda
“A ideia era que ela fechasse o disco. Mas depois vem Sinhá, de apêndice, que fecha melhor. Trata-se de uma brincadeira com os lapsos de memória, que acabaram gerando o samba suingado que às vezes parece ir para o Caribe, graças ao piano meio cubano.”

Sinhá
“Só sabia que tinha de ser o João Bosco no violão. Desde o começo, pensava nele para fazer o samba-afro, cujas cordas remetem à cora africana, um instrumento de muitas cordas.”

De bem com a vida

Chico Buarque volta a um universo que lhe é muito peculiar, enquanto discípulo de Noel Rosa, Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes, entre outros mestres da canção. Especialista em criar e polir pérolas, em seu novo disco o artista burila a língua portuguesa inspirado por suas musas (Aurora, Amora, Teodora, Nina, Aurélia, Ariela, Glorinha, Maristela, Soraia, Anabela e Barbarela), sem deixar de lado a crítica social, que não poupa os companheiros de profissão em Rubato (roubado, em italiano). Essa parceria com Jorge Helder traz à tona prática comum no meio musical, há algumas décadas: “Aurora, eu fiz agora/ Venha, Aurora, ouvir agora/ A nossa música/ Depressa, antes que um outro compositor/ Me roube e toque e troque as notas no songbook”, denuncia a letra da marchinha.

Do ritmo carnavalesco aos inevitáveis sambas de todos os tempos (Sou eu, Barafunda e Sinhá), passando pelo blues (Essa pequena), baião (Tipo um baião), canção francesa (Se eu soubesse), valsa (Nina) e o que ele chama de adágio jobiniano (Sem você 2), Chico é o retrato fiel de um compositor apaixonado, de bem com a vida, mas sem deixar de lado as harmonias rebuscadas que marcaram sua trajetória na MPB.

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