
O ator Howard Spence (Sam Shepard) sabe o que é um bom faroeste. Montou toda a sua carreira interpretando mocinhos de bangue-bangue. Mas o que um dia foi um ícone hoje é uma sombra. Conhecendo-o depois, dava até para prever que um dia ele surtaria. E o dia chegou. Howard estava nas filmagens de O Fantasma do Oeste, sua tentativa de voltar ao estrelato, quando abandona o set em cima de um cavalo, com o figurino do personagem no corpo. Foge sem rumo - e acabará tendo que enfrentar sua própria história.
Nos anos 80 o alemão Wim Wenders era sinônimo de cult. Se agora ele retorna à geografia de sua obra-prima Paris, Texas, o Meio Oeste dos Estados Unidos, não é de forma nostálgica, mas arriscando novas linguagens. Estrela solitária é um filme que atiça os sentidos. O Velho Oeste, antes monocromático, monocórdio, mitológico, agora é conspurcado de luzes, cacofonias, exageros de cores vertiginosas. Do barulho de um barbeador elétrico a um carro com a lataria forrada de espelhos, que avança cena adentro como um globo de discoteca sobre rodas, Wenders capta tudo nesse seu retorno ao Oeste, com o ouvido apurado e os olhos abertos de quem ainda se abre a experimentações.
Critica sobre o filme Estrela SolitáriaO segundo filme do galã George Clooney como diretor tem tudo para virar cult dentro de alguns anos. E não só porque foi injustamente derrotado no Oscar por Crash. Tende a virar objeto de culto porque é um filme corajoso em todos os sentidos - desde a comparação da Era Bush com o Macarthismo, passando pela fotografia em preto-e-branco, até a desavergonhada glamourização do hábito de fumar, atitude impensável para os dias politicamente corretos de hoje.
A história nos situa nos anos 1950, quando o senador republicano Joseph McCarthy (que aparece no filme por meio de imagens de arquivo) empenha-se numa caça às bruxas de supostos comunistas no seio da nação. De seu lado, lutando contra o pensamento único, o âncora de TV Edward R. Murrow (David Strathairn), o produtor Fred Friendly (interpretado pelo próprio Clooney) e sua equipe de repórteres denunciam a aversão de McCarthy aos direitos civis e seus métodos de investigação. Murrow encerra seu programa sempre com o bordão "Boa noite e boa sorte", sinalizando que os tempos que correm não são os melhores para quem preza a liberdade de expressão.
Warren Beatty é John McCabe, forasteiro não muito inteligente, metido a macho, que decide montar num vilarejo perdido no Oeste dos Estados Unidos um bordel em parceria com a cafetina Constance Miller (Julie Christie). O negócio prospera aos poucos, logo chama a atenção de compradores vindos de outras regiões do país. É aí que McCabe precisa provar sua hombridade.
Hoje com 81 anos, o cineasta Robert Altman já passeou por gêneros vários, da guerra ao musical. Seu flerte com o faroeste, no caso, não foi menos do que marcante. Não espere duelos ao meio dia ou dançarinas de cancan. O olhar de Altman sobre o Velho Oeste não tem nada de glamourizado. Como todo western digno dos clássicos, Quando os homens são homens trata da bruta transição entre a ingenuidade pré-colonização e a pressa da civilização que nasce então. Nesse meio caminho, McCabe é um símbolo do peso que recaiu sobre os homens de seu tempo.
Pelo nome parece até um filme de James Bond. Pelo contrário, não há nada de espetaculoso ou inverossímil nesse drama de temática forte. Frankie Machine (Frank Sinatra) adquiriu o apelido de "Braço de Ouro" por sua destreza como crupiê no pôquer. Ele acaba de sair da prisão, o apelido fica, mas ele não quer mais saber do jogo. A sua luta pela superação, porém, será árdua. Ele precisa lidar com a invalidez da esposa (Kim Novak) e com o vício em heroína, cujos surtos de abstinência corroem todos os seus sonhos.
Os anos 50 são, em Hollywood, aqueles que assistem aos últimos suspiros do star system e da Era de Ouro dos estúdios. Essa transição é marcada, entre outras coisas, pela evidência de temas antes tabu - como as drogas, no caso do filme de Preminger. Muitos chamam a fase de Realismo Americano. Os melhores filmes da época buscavam sua fonte no teatro, em especial nas peças de Tennessee Williams, mas é de um livro, de autoria de Nelson Algren, que Preminger tirou O homem do braço de ouro. O resultado é uma das melhores atuações de Sinatra e um filme emblemático daquela década.
Aproveitando a deixa do filme anterior: se os anos 50 são o crepúsculo da Era de Ouro de Hollywood, isso se deve ao crescimento do cinema europeu na década de 60. O melhor em matéria de Sétima Arte era feito pela Nouvelle Vague na França e pelos italianos do pós-Neo-Realismo. Michelangelo Antonioni, no caso, com a sua Trilogia da Incomunicabilidade (da qual A noite é o filme do meio), até hoje é considerado um vanguardista. Poucos criticam o vazio cacofônico da sociedade do século XX como ele, e A noite mostra que a principal vítima desse vazio é o amor.
Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni) é um escritor afamado que leva um casamento morno com Lidia (Jeanne Moreau). No intervalo de um dia eles visitam um amigo moribundo no hospital, Giovanni comparece à divulgação de sua nova obra, Lidia vagueia por Milão, e ambos seguem a uma festa da alta burguesia. É durante essa noite, entre flertes que ela e Giovanni trocam com outras pessoas, que Lidia percebe: o simulacro de casamento que ela vive não tem mais futuro. Parece deprê? Pois Antonioni nos fala com tal sobriedade que só resta reconhecer nossas mazelas e lhe dar razão.

