Marcia Franco - artista plástica, ilustradora




Aquarelas botânicas de espécies nativas da região da Serra do Espinhaço

Texto de Sebastião Miguel, professor da Escola Guignard de Belo Horizonte, sobre a exposição “Flores da Serra do Espinhaço”, setembro de 2012, BH.

Na evolução da arte da ilustração botânica a beleza das flores inspirou artistas durante séculos. Para os cientistas, no entanto, o propósito de flores que ilustram é mais para captar a sua essência fundamental do que para retratar a sua beleza. Ao longo dos séculos, esses dois objetivos se fundiram. Enquanto arte e também ilustração botânica é o que Márcia Franco nos apresenta nesta mostra. É evidente que não há diferença clara entre a ilustração botânica e arte botânica. Mas a distinção aqui reside no labor e manufatura dessa artista que, com delicadeza, nos leva a ver além de uma reprodução e nos brinda com uma obra de arte original.

As descrições das plantas eram feitas por uma combinação de palavras e desenhos. Por mais de dois milênios plantas têm sido relatadas por desenhos para tornar a identificação mais fácil, confiável. Lembra-nos os herbários da Idade Média catalogando plantas úteis, especialmente as ervas medicinais. Eles representam os primórdios da moderna farmacologia e botânica descritiva. O desenvolvimento destas ciências passou de mão em mão como a arte da ilustração botânica.

Os últimos cinco séculos de ilustração científica abarcam quase todo o patrimônio dessa técnica e arte, que só pôde desabrochar com a invenção e a evolução da imprensa. Antes, quando a reprodução dos textos estava a cargo dos copistas, as ilustrações que neles eram inseridas não podiam ser representadas com fidelidade. Plínio, o Velho, talvez o naturalista mais essencial da antiguidade, dizia que a diversidade de copistas, e os seus comparativos graus de habilidade, aumentam consideravelmente os riscos de se perder a semelhança com os originais. E elucidava que as ilustrações são propensas ao engano, especialmente quando é necessário um grande número de tintas para imitar a natureza. Por tudo isso, advertia Plínio, os autores devem-se limitar a uma descrição verbal da natureza.

A mostra Flores da Serra do Espinhaço, elaborada por Márcia Franco, coloca um véu nesta afirmação. Numa expedição, ela parte da documentação fotográfica e depois através dela é revelada a progressão da obra original para as imagens com as quais agora somos brindados. Desenhos em grande escala, Flores da Serra do Espinhaço vão além do simulacro e do simples registro. As imagens não falseiam e nem imitam uma realidade: revelam.

Essa construção do autêntico esboça um além da realidade ou de oferecer imagens, ao invés da realidade. Nem todos podem ser exploradores e ela, artista atenta, nos apresenta a prova de sua visão. Assim podemos também contemplar e reconstruir esse aspecto que nos leva para esse espaço e enxergar a micro natureza e todas as suas tonalidades e cores.

Autoconfessa amante da natureza e da arte, Márcia é uma atenta observadora. Há uma asserção que diz: você realmente não vê uma planta até que você a desenhe.

Nos primeiros discursos científicos que incluíam ilustrações, essas eram às vezes mais estilizadas e imaginárias que as descrições exatas dos espécimes. As primeiras explicações de animais e plantas não tinham nenhuma ilustração. Imagine uma descrição de uma planta violácea somente em palavras. Qual é o tom da sombra deste violeta? Como é o formato da pétala? Essas deficiências em comunicação fizeram óbvia a necessidade de um desenho. Assim, artistas acompanharam expedições para registrar as descobertas visualmente e partilharam essa experiência emocional através de seus trabalhos. Um artista ilustrador acha o campo na fusão ideal de interesses entre a arte e a ciência.

Márcia chega ao belo desenho que é tão verdadeiro quanto possível de seu assunto. Suplanta um corpo de informações científicas e, além da beleza, nos transmite uma nova visão e mensagem.

Sebastião Miguel
Coimbra, 2012

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