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Akira Kurosawa
Sonhos, de 1990, imagens oníricas em momentos únicos, ao mesmo tempo belos e estranhos

Akira Kurosawa, faria 100 anos (1910-1998)

Conjunto da obra do cineasta Akira Kurosawa, que faria 100 anos no dia 23 de março de 2010 (1910-1998), representa um raro momento de encontro entre a cultura japonesa tradicional e outras civilizações.

Quem quiser medir o impacto da obra do japonês Akira Kurosawa (1910-1998) sobre o cinema contemporâneo pode fazê-lo sem sequer ir ao cinema. Segundo o site IMDB, o mais completo banco de dados sobre filmes disponível na internet, neste momento estão em produção três projetos baseados em roteiros dele – inclusive nova versão da que talvez seja sua criação mais célebre, Os sete samurais. Desde sua morte, seis outras obras para cinema ou vídeo foram atrás da preciosa jazida representada por seus filmes e escritos. Para os que vão ao cinema, então, a influência é maior ainda: se estamos comemorando hoje o centenário do mais célebre cineasta japonês de todos os tempos, quando percebemos estruturas de seus filmes em longas como A vingança dos Sith, O senhor dos anéis ou mesmo no recente Avatar temos a impressão de que elas vêm de um jovem sintonizado com o cinema contemporâneo.

A obra de Akira Kurosawa, em seu conjunto, representa um raro momento de encontro entre a cultura japonesa e diversas outras civilizações, inclusive a ocidental. Talvez ele não tenha sido o maior nome do cinema de seu país – título que talvez deva ser concedido a Kenji Mizoguchi (1898-1956). Mas foi, sem dúvida, o criador do Japão que melhor se comunicou com o público fora de seu país – e ao fazê-lo, incorporou a uma linguagem internacional do cinema até mesmo elementos que, até então, eram operados apenas por cineastas e espectadores japoneses. Inclusive algumas estruturas marcantes do próprio Mizoguchi, como certas formas sutis de mover a câmera de maneira quase imperceptível.

A viagem rumo a outras culturas sempre foi em duas direções. Por um lado, Kurosawa bebeu das águas representadas pela obra de cineastas como o americano John Ford e o soviético Sergei Eisenstein. Ao fundir a criação dos dois a elementos de sua própria cultura, Kurosawa foi capaz de renovar o caráter épico do cinema.

Seus filmes estabelecem, para os espectadores, pontos de vista que permitem a eles ter consciência de serem observadores da cena, exteriores a ela mas não menos apaixonados pelo que assistem. O mundo representado pelo cineasta torna-se, dessa maneira, um grande painel que nos convida a assisti-lo exatamente porque não estamos dentro dele. Por mais que nos identifiquemos com alguma personagem, temos, o tempo todo, a consciência de ligeiras distorções de espaço e tempo que nos mantêm em estado de estranhamento constante (como costuma ocorrer com a pintura japonesa, que ao nos negar sutilmente o que na figuração ocidental chamaríamos de ponto de fuga, proporciona ao espectador imagens que parecem fundir mais de um ponto de vista possível). Temos, diante de nós, mais que a história das personagens, o drama da condição humana. Outra nítida influência ocidental é a dramaturgia de William Shakespeare.

Ela não se manifesta apenas na adaptação para a paisagem japonesa de obras do dramaturgo britânico em filmes como Trono manchado de sangue (Macbeth) ou Ran (Rei Lear). Mesmo em outros filmes, Kurosawa dá nova forma ao solilóquio, trabalha a grandiloquência à maneira shakespeareana, no contraste entre sentimento sublime e humor eventualmente grotesco.

Filhos No caminho de volta, é possível pensar que todo o cinema épico contemporâneo no ocidente deva muito à revisão do gênero operada por Akira Kurosawa. Entre seus admiradores confessos estão cineastas americanos como George Lucas, Steven Spielberg e Martin Scorsese – e muitas de suas obras, como Guerra nas estrelas, A lista de Schindler ou Gangues de Nova York reencontram caminhos percorridos pelo cineasta japonês. Entre outros “filhos” de Kurosawa estão o novo cinema chinês (o Zhang Yimou de Herói, por exemplo, deve muito a obras como Rashomon ou Kagemusha), Mais tarde, seria novamente a vez de Kurosawa agradecer ao cinema de fora do Japão: com dificuldades com a produção em seu país a partir dos anos 1970, suas últimas obras-primas seriam realizadas com recursos soviéticos (Dersu Uzala) ou americanos (Sonhos, Rapsódia em agosto).

Acima de tudo, o cinema de Akira Kurosawa surpreende até hoje por uma poderosa contradição – sua capacidade de se aproximar de nós, ao mesmo tempo, por caminhos tradicionais e renovadores. Do primeiro ponto de vista, temos diante de nós imagens clássicas, compostas como se fossem pinturas, marcadas por harmonia e equilíbrio. Essas imagens, contudo, encadeiam-se de maneira que permanece revolucionária até hoje. A multiplicidade de pontos de vista em Rashomon, por exemplo, pode ser imitada, mas continua incômoda, até assustadora, na maneira como nos obriga a nos posicionar frente ao que vemos.

Volta e meia encontramos em Kurosawa mesmo a arrogância dos vanguardistas mais ousados: o longo plano inicial de Kagemusha, por exemplo, em que as personagens conversam quase sem se mover (em contraste com a imagem seguinte, em que a câmera acompanha freneticamente um homem que corre), os tempos aparentemente estáticos de Dersu Uzala ou as imagens oníricas de Sonhos continuam sendo momentos únicos, belos e estranhos pela distância que têm do que usualmente consideramos cinema, nos lembrando que sempre há outras maneiras de observar alguma coisa.

Marcello Castilho Avellar
Jornal Estado de Minas

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