
Estúdio cinematográfico brasileiro que teve seu auge nos anos 1950 e produziu mais de 40 filmes anuncia retorno ao mercado depois de 33 anos de pausa. Longa de estreia será sobre Lima Barreto.
Um dos mais importantes estúdios da história do cinema brasileiro, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada em 1949 pelo industrial Francisco Matarazzo e pelo produtor italiano Franco Zampari, está de volta aos sets de filmagem. A empresa, que tinha como lema a “Produção brasileira de padrão internacional", foi a primeira do gênero em moldes profissionais no país. Produziu e coproduziu mais de 40 longas. À frente da Vera Cruz desde 1996, Walfred Khouri anuncia o primeiro longa depois de pausa de 33 anos: LBPersona, sobre a vida de Lima Barreto, diretor de O cangaceiro (de 1953), e os bastidores das filmagens da mais importante obra do estúdio, vencedora de dois prêmios no Festival de Cannes. Na sequência, será rodada a comédia É proibido beijar. Mais: o estúdio, que teve disponibilizado parte de seu acervo na internet, na segunda-feira ganhará livro sobre a segunda fase de sua história.
Khouri conta que LBPersona (que tem co-produção da Digital Films & Toon) surgiu por meio de Galileu Garcia, assistente direto de Lima Barreto em O cangaceiro. O diretor, de 80 anos, está no interior de São Paulo comandando as filmagens do longa, orçado em R$ 800 mil, que deve ser finalizado este ano e lançado no primeiro semestre de 2011. “Nada poderia ser mais legítimo do que Galileu escrevendo e dirigindo”, diz Khouri. “A Vera Cruz não vai entrar em produções visando somente ao mercado, mas também e principalmente à cultura. Pretendemos conseguir recursos para a restauração definitiva e completa de todo o acervo de filmes do estúdio. Acho importante preservar a memória cinematográfica, tão maltratada no Brasil”, afirma.
Músico profissional, Fred Khouri fez algumas trilhas para os filmes de seu pai, Walter Hugo Khouri, além de ter trabalhado como ator em três ocasiões para ele. Assumiu a Vera Cruz depois que seu tio William (sócio de Walter) morreu e seu pai ficou muito doente. “Não houve a decisão de parar a produção”, revela, explicando que o governo do estado de São Paulo, na época, não tinha interesse em manter o imóvel em São Bernardo disponível para filmagens. “O espaço era cedido em comodato e pagar um aluguel para um terreno daquele tamanho (400 mil metros quadrados) era impossível. Diante disso, a empresa se transferiu para São Paulo, vendeu todos os equipamentos e passou a cuidar do acervo de fotos e filmes de suas 44 obras cinematográficas.”
Docudrama Na luta pela preservação da história do estúdio, o diretor da Vera Cruz destaca o trabalho de Sérgio Martinelli, “que tem ajudado e contribuído muito para a realização de todos os projetos de divulgação e preservação, há mais de 10 anos.” Martinelli é o autor do livro Vera Cruz – Imagens e história do cinema brasileiro (de 2003), do CD-ROM Vera Cruz e seus filmes (2000) e também produtor executivo de LBPersona. É ele quem conta: “O longa será um docudrama. Ao mesmo tempo em que terá passagens dos bastidores das filmagens de O cangaceiro, contará a vida do cineasta, interpretado pelo ator Milton Levy, de São Paulo, que além de talentoso é a cara do Lima Barreto”. Filme brasileiro mais visto até hoje no mercado internacional, a obra mais famosa da Vera Cruz acumula em torno de 13 milhões de espectadores nas bilheterias de todo o mundo. Só em Paris, O cangaceiro ficou dois anos em cartaz.
A pré-produção de LBPersona começou em janeiro e as filmagens, iniciadas em 15 de abril, terminam até segunda-feira. “Haverá depoimentos de pessoas que trabalharam com Lima Barreto. Foram dois dias de gravações em estúdio todo adereçado com coisas do filme e da Vera Cruz”, revela Martinelli, destacando depoimento da atriz Vanja Orico, que interpretava a professora Maria Clódia no primeiro longa brasileiro premiado em Cannes – O cangaceiro faturou os troféus de melhor aventura e de melhor trilha, com a música Olê muié rendeira (interpretada por ela).
LBPersona também mostrará a personalidade difícil de Barreto. “Ele era genial e, como todo gênio, meio Glauber. O próprio Galileu, que conviveu com ele anos e anos, diz que o diretor era do tipo que perde o amigo, mas não perde a piada. Pessoa ácida, mas muito inteligente e interessante.” Tanto que se recusou a fazer O sertanejo, com a Columbia Pictures, para não ceder às exigências da produtora. “Ele podia fazer o que quisesse. Era famoso. Penso que não quis que cerceassem sua liberdade, tanto que produziu um filme independente, A primeira missa (de 1961), última obra de Lima Barreto, que morreu em 1982.
COMÉDIA LIGEIRA
Sérgio Martinelli esteve envolvido também com o processo de restauro do acervo iconográfico da Vera Cruz em 2004. São cerca de 10 mil negativos e documentos. “Os direitos foram adquiridos pela Cinemateca Brasileira. Sinto que minha missão foi cumprida”, assegura. Agora, enquanto acompanha a produção de LBPersona, ele está às voltas com o roteiro do novo longa que o estúdio produzirá, É proibido beijar. Baseada no filme de 1954, de Ugo Lombardi, com Tônia Carreiro e Mário Sérgio, “a obra recupera a comédia ligeira. O cinema brasileiro perdeu um pouco a mão de filmes do gênero, que talvez estejam voltando à cena com Daniel Filho (em Se eu fosse você).” Os atores ainda não foram escolhidos. “Vamos fazer uma obra barata, nada de grande produção. O que vale é uma boa história, um bom roteiro,” avisa, entusiasmado com a volta da Vera Cruz à ativa.
O QUE VER
Livro: Vera Cruz – Imagens e história do cinema brasileiro (2003)NA REDE
O Canal Elo Cinema (www.elocinema.com.br) disponibiliza 13 longas de ficção e cinco documentários produzidos pela Vera Cruz:
Longas: Sai da frente (1952); Nadando em dinheiro (1952) e Candinho (1953), de Abílio Pereira de Almeida; Sinhá moça (1953), de Tom Payne; Família Lero Lero (1953), de Alberto Pieralisi; O sobrado (1956) e Paixão de gaúcho (1957), de Walter George Durst; O gato de madame (1956), de Agostinho Martins Pereira; Osso, amor e papagaio (1956), de Carlos Alberto de Souza Barros; Noite vazia (1964), O corpo ardente (1966) e As amorosas (1967), de Walther Hugo Khouri; e Grande sertão: Veredas (1965), de Geraldo e Renato dos Santos Pereira.
Documentários: Marcelo Grassman – 25 anos de gravura, de Silvio de Campos Silva; São Paulo em festa, de Luciano Salce; Obras novas – A evolução de uma indústria; Painel e Santuário, de Lima Barreto.

