
Instrumento cuja prática disciplinada e apaixonada acabou gerando linguagem própria por aqui – a escola russa pode ter originado a brasileira, segundo pesquisadores, graças ao talento de Tute, o violonista do Oito Batutas, de Pixinguinha, que o teria escutado pelas mãos de ciganos, no Rio de Janeiro –, o violão sete cordas volta a patrocinar um duo de ouro em disco, depois do encontro memorável de Rafael Rabello e Dino 7 Cordas, em 1991.
Os protagonistas da vez são o carioca Valter Silva, de 70 anos, e o gaúcho Yamandú Costa, de 30. Sob produção do violonista Marcello Gonçalves, do Trio Madeira Brasil, eles gravaram Yamandú Valter (MP,B/ Universal), outra preciosa raridade do mercado fonográfico. Além de tomar conhecimento do carioca por meio de discos em que ele acompanhava outros artistas, o que mais impressionava Yamandú eram os comentários a respeito do colega. “Valter é improvisador nato”, elogia o gaúcho, lembrando que o instrumentista e o irmão, Valdir, fizeram fama com o sete cordas.
“Valter tem a coisa do músico cigano, do músico da noite, aquela espécie de encantador de serpentes que deixa as pessoas boquiabertas com sua maneira de improvisar, com a coisa da linguagem, com o humor”, derrama-se Yamandú. “Na primeira vez que o vi, fiquei apavorado. O que é isso?, pensei”, recorda o gaúcho. Por aqui, o sete cordas é bem tocado por muita gente. “Mas, com o humor e a leveza do Valter não há. É uma coisa impressionante, realmente”, pondera, atribuindo a genialidade do parceiro à sua personalidade.
O primeiro encontro dos dois ocorreu, não por acaso, na casa do violonista Marcello Gonçalves, cuja festa de aniversário tinha na plateia, entre outros, o cineasta alemão Wolfgang Becker, diretor de Adeus, Lênin. “Marcello convidou o Valter, ele falou que não iria, mas acabou aparecendo. Na época, eu tinha 24 anos”, relembra o gaúcho. “Começamos a tocar um repertório violonístico e parou a festa. Foram cinco horas de duo, ao vivo, um negócio emocionante”, revela o gaúcho.
“Sete cordas atípico”, o gaúcho – introduzido na área sob influência de Rafael Rabello – ouvia mais falar de Valter que das gravações dele. Para a escolha do repertório do disco, Yamandú preferiu não ocupar o companheiro com novidades. “Fomos pesquisar o que ele já tocava dentro do repertório tradicional do sete cordas”, explica, citando choros mais conhecidos no meio musical, mas que tivessem o contraponto característico do sete cordas como instrumento solista. “Caso de Implicante, de Jacob do Bandolim, e Uma noite no Sumaré, de Esmeraldinho Salles e Orlando Silveira”, exemplifica.
Yamandú Costa e Valter Silva gravaram Tempo de criança e Magoado (Dilermando Reis); Dengoso (João Pernambuco); Os cinco companheiros (Pixinguinha); Caprichos do destino (Pedro Caetano e Claudionor Cruz); Mistura e manda (Nelson Alves); Tua imagem e Com mais de mil (Canhoto da Paraíba): Arabiando (Esmeraldino Salles); Rosa morena (Dorival Caymmi); e Revendo o passado (Freire Jr.). O repertório foi muito mais trabalho do gaúcho, que teve de tirar todas as músicas, aprendendo-as e colocando-as na linguagem violonística. Marcello Gonçalves e Yamandú selecionaram as faixas.
“Ouvimos muita coisa”, diz o gaúcho, solista do álbum, enquanto Valter Silva “borda” as canções, no acompanhamento. “Foi um processo bacana, bem cuidadoso. Durante duas semanas fiquei ouvindo o Orlando Silva cantar aquela canção ‘Se Deus um dia/ Olhasse a Terra/ E visse o meu estado’, enquanto caminhava na Lagoa Rodrigo de Freitas, para conseguir interpretação mais parecida”, conta Yamandú, cantarolando a clássica Caprichos do destino. “Fizemos com muito carinho, tendo em vista o desejo de transformar o disco em referencial do sete cordas tradicional”, explica.
Fama Músico acompanhante de artistas consagrados como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Angela Maria e Dona Ivone Lara, Valter Silva era um talento escondido, ainda que sua fama no meio violonístico ultrapasse os limites do Rio de Janeiro. Para ele, o álbum com Yamandú Costa representa ótima oportunidade.
“Interessante o Yamandú estar interessado em gravar com um cara como eu, da velha guarda”, comemora, elogiando a vocação e a habilidade do jovem gaúcho no sete cordas. “Ele é um cara fabuloso, de muito bom gosto”, elogia o veterano, destacando o “estilo espanholado” do novo amigo, que se aproxima da escola do violão flamenco. Houve ensaio para algumas das canções registradas em duo, mas a maioria foi gravada na hora. “Agradeço muito ao Yamandú por ter se lembrado de mim”, reconhece Valter.
Natural de Campo Grande, no subúrbio carioca, onde ainda mora, o violonista chegou ao instrumento por meio dos pais e dos avós, também músicos. Aos 6 anos, ele já estudava violão. Valter Silva explica que não gravou disco solo por ser acompanhante de outros artistas: “Acompanhador e exibicionista, aquele cara que faz firulas”.
Mas o veterano admite: quando chega a sua vez de exibir talento nas cordas, está sempre inventando alguma coisa. “Não tenho vocação para solista”, garante o discípulo de Dino 7 Cordas, que teve Rafael Rabello entre seus alunos. Na opinião do carioca, a identificação do brasileiro com o violão sete cordas se deve à beleza do acompanhamento que ele proporciona, permitindo “desenhar e bordar a música”. Isso exige do instrumentista certa criatividade e categoria. Palavra de mestre.

