Ofício de ilusionista ganha mercado e atrai jovens e adultos, que procuram formação acadêmica na cidade. Profissionais se dividem entre shows, festas e mágica corporativa.
Carlos Alberto Souza Viana, 37 anos, é casado e tem dois filhos. Trabalha como corretor de seguros de empresa multinacional. Atualmente, 30% de sua renda vem de atividade paralela cuja importância é tão grande que resolveu investir num novo curso para exercê-la profissionalmente. Provavelmente, você não pensou que fora do escritório ele atua como mágico – a menos que você também seja ou conviva com um deles –, mas é essa sua segunda profissão. Ele é um dos 22 formandos do Centro Cultural de Arte Mágica (Cecam) que receberão diploma segunda-feira, no Teatro Marília, em Belo Horizonte. Para quem não sabe, eles fizeram curso de um ano na instituição, cuja sede é na cidade, e encontrarão bom mercado de trabalho pela frente.
Quem garante é Jocelem Thiago da Silva, o mágico Yago, que responde como diretor de ensino e professor do Cecam: “Hoje, dá para todo mundo trabalhar. Há 10 anos, os salões de festa em Belo Horizonte eram bem menores. Há mais feiras de negócios e muitos restaurantes da cidade estão contratando mágicos e não apenas para entreter crianças. Formaturas, bodas, 15 anos, casamentos. Isso pegou. O mágico Rossini, por exemplo, que é presidente do Cecam, tem um número de 10 minutos só para casamentos, que faz com aros e declamando poesia”.
As boas oportunidades, observa, estão numa nova área de trabalho chamada ‘mágica corporativa’. “A mágica ajuda a fixar informações na cabeça das pessoas. Se você der uma apostila para elas, ninguém lê. Se você faz uma mágica agrupando fatos concretos que quer mostrar, o cara vai para casa pensando na mágica e, consequentemente, no que originou aquilo”, explica Yago. Não basta chegar à empresa e impressionar os presentes com um bom número: é preciso estar consciente dos objetivos do contratante para, então, desenvolver um quadro mágico que transmita a mensagem e, claro, convença.
Para se ter uma ideia, por uma palestra motivacional para empresa ele cobra R$ 7 mil. “Há quem faça mágica por encanto, para divertir, e isso é válido. Há também os que, sem formação, compram uma porção de aparelhos e, sem saber o que fazer com aquilo, colocam um anunciozinho no jornal e ficam esperando alguém telefonar para fazer festinha infantil. Esse não vai ganhar dinheiro. Em qualquer profissão é possível ganhar dinheiro, mas é preciso ver onde ele está e focar naquilo. Na arte mágica não é diferente”, afirma.
Destaque nacional
Tanto Yago como Rossini (Felipe Rossini, presidente do Cecam) afirmam que Minas Gerais hoje é o segundo maior polo de mágica do país, perdendo apenas para São Paulo. Um dos motivos principais seriam os constantes intercâmbios com mágicos do exterior, que vêm ao estado a convite da instituição. No próximo dia 11, por exemplo, receberão o português David Sousa, grande atração de recente congresso sobre mágica em Beijing, na China, para falar sobre expressão corporal do mágico no palco. Ainda este ano, também querem trazer a chinesa Juliana Chen, campeã mundial de manipulação.
“O Cecam hoje é referência nacional em formação de mágicos. Nas competições, ele é destaque e as formaturas são eventos aguardados, pois todo mundo sabe que são mágicos a se prestar atenção nos próximos anos”, afirma Rossini. Ele estima que desde a fundação do centro cultural, cerca de 200 alunos tenham se formado lá, o que inclui pessoas vindas de outros estados e até do exterior. O ensino não é a única face da instituição, que tem papel relevante na militância em prol de causas importantes para a classe mágica, com destaque para os profissionais que atuam em circos. Inclusive, ela apoia a implantação de biblioteca sobre mágica em cidade a ser definida (BH ou Rio).
Para fazer o curso do Cecam, o único pré-requisito é ter no mínimo 10 anos. “Porque a formação muscular da mão de crianças mais novas ainda não comporta técnicas de manipulação”, explica Yago. São 12 módulos, um por mês, com duas aulas cada, aos sábados e domingos. As disciplinas são agrupadas em duas modalidades: palco (manipulação, grandes ilusões e magias clássica, cômica e para crianças) e mesa (close up, curta distância, cartomagia, mentalismo, que inclui telepatia e transmissão de pensamento). Pessoas de qualquer idade podem se inscrever, mas no caso de estudantes, só aqueles com boas notas e comportamento exemplar na escola são aceitos.
Paixão não tem idade
Filho de Rossini e neto de Yago, San Pierre, ou melhor, Pedro Tiago de França Silva, de apenas 11 anos, é um dos formandos e já sabe muito bem o que quer fazer: “Acho a mágica uma coisa bastante cultural, bonita, que encanta as pessoas. Gostaria de ser parte dessa arte tão bonita. Quero viver só disso e sei que é possível”. Ele faz parte da quinta geração de mágicos da família, que começou com seu tataravô, conhecido como Mr. San, que foi o preferido de Getúlio Vargas, trabalhou no Cassino da Urca e era chamado pela ex-presidente da Argentina Isabelita Perón para shows particulares.
Pouco mais velho que ele, Lucas Ramos, de 13, sempre teve interesse pelo assunto e quis conhecer melhor esse universo influenciado pelo encantamento que as pessoas sentem diante de um bom número de mágica. Também é um jovem bastante decidido para a idade que tem: “Quero seguir a mágica como profissão, dando ênfase à competição”. Os pais apoiam, mas foi preciso que ele os convencesse. “Acharam que era loucura, que não era possível viver disso. Depois viram que não”, lembra.
Seu colega Vinicius Teodoro, de 19, também gosta de mágica desde pequeno e quando soube do curso, não perdeu tempo. Começou por hobby e ainda não sabe se vai viver só de mágica. A única certeza é a de que foi “contaminado” por ela. “Não há mais como largar”, diz. Já Tiago Dornelas Moreira, de 26, é o que se chama de “palhágico”, ou seja, investiu nas formações de palhaço e mágico. “Tem mês que é fraco, tem mês que é bom, mas dá uma renda legal”, conta o formando.
Um dos mais velhos da turma, Syrius Black, nome artístico pelo qual responde Carlos Alberto Souza Viana, garante que a mágica tem sido útil em todas as áreas de sua vida. Até no trabalho: “É uma forma de ‘quebrar o gelo’ com o cliente, como fazer a caneta aparecer do nada para o cliente assinar o contrato”. Nas visitas comerciais, por exemplo, há a chance de conquistar filhos de clientes. “Sou visto de forma diferente e não como o cara que está chegando para vender”, observa. Não é por acaso que um de seus sonhos seja fazer da mágica sua principal profissão.
Fonte: Jornal Estado de Minas
Autor: Eduardo Tristão Girão
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