Universidade Federal de Minas Gerais cria curso superior de dança, que começa a receber alunos no ano que vem. A ideia é formar professores nas modalidades contemporânea e popular brasileira.
Centro de referência da dança (contemporânea, clássica, jazz, sapateado e até de rua e de salão), reconhecida nacional e internacionalmente, Belo Horizonte vai ganhar o primeiro curso superior da área, abrigado pela Escola de Belas Artes da UFMG. Depois das artes visuais e do teatro, além de uma escola própria de música, a instituição vai abrigar, a partir do ano que vem, uma licenciatura em dança, cujo objetivo é formar professores para o ensino da dança no estado que abriga, hoje, algumas das principais companhias de dança contemporânea do país, como o Grupo Corpo e o 1º Ato.
Até então, a única cidade mineira a ter um curso superior de dança era Viçosa, na Zona da Mata, onde a Universidade Federal de Viçosa (UFV) abriga graduação ligada à Escola de Educação Física. Demanda antiga, paralisada pela falta de número suficiente de professores para montar o curso, a licenciatura da UFMG vai realizar, até o início do ano que vem, concurso para a contratação de sete profissionais de ensino, preparando a seguir o primeiro vestibular do curso, que irá abrir 20 vagas noturnas, com aulas já a partir de agosto de 2010. No ano seguinte, o curso passará a oferecer 40 vagas anuais, metade delas em cada semestre.
“Além de melhorar, vamos ampliar o mercado de trabalho, já que, até então, as adolescentes que chegavam aos cursos profissionalizantes de dança tinham de parar de estudar para fazer vestibular de alguma coisa, porque os pais cobravam delas uma graduação”, comemora a coreógrafa Suely Machado, do 1º Ato, que preside a Associação Mineira de Dança Artística Acadêmica (Unidança). Responsável pela criação de um curso de extensão (Pedagogia do movimento para o ensino da dança) na instituição, no fim dos anos 1990, a Unidança comemora a oportunidade de aproximação da prática (professores e bailarinos) e da academia (pensadores), que, no Brasil, segundo Suely, acabaram se distanciando.
A graduação em dança na capital será feita em nove semestres (4,5 anos), tendo no currículo básico a pedagogia e a parte física do movimento, com o aluno podendo optar por dois percursos: um mais ligado à dança contemporânea e outro relacionado às danças populares brasileiras. “Queremos formar profissionais que tenham noção clara de como trabalhar o corpo de crianças e adolescentes, sem nenhum tipo de risco”, declara a professora Lúcia Gouvêa Pimentel, presidente da comissão de criação e implantação do curso da UFMG, que também contou com a colaboração dos professores Arnaldo Alvarenga e Mônica Ribeiro, além de profissionais como Suely Machado e Marjorie Quast, entre outros.
Sonho real
Marjorie Quast, do Núcleo Artístico de Dança, acredita que com a criação da licenciatura a tendência é o curso de extensão, já existente na UFMG, se transformar, mais tarde, em bacharelado. “Queríamos muito que isso ocorresse na UFMG, que é do povo”, comemora, lembrando que escolas particulares superiores também se interessaram na implantação do curso de dança na capital. “Estamos muito felizes com a concretização do sonho”, acrescenta Marjorie, que, além do grupo contemporâneo Camaleão e do projeto social Comunidade Saudável (Morro das Pedras), mantém três academias de dança na capital (nos bairros Savassi, Floresta e Buritis), com grande número de professores e estudantes, que vão da infância à juventude.
“Como a disciplina arte na escola básica supõe que haja professores especializados em artes visuais, música, teatro e dança, estamos cobrindo uma lacuna existente na UFMG”, considera Lúcia Gouvêa Pimentel, lembrando que há uma demanda muito grande de profissionais de dança para atuarem em grupos e academias da cidade e do estado, já que muitos dos que hoje estão em atividade não têm formação específica. “É o que a gente mais precisa”, constata o coreógrafo Rodrigo Pederneiras, do Grupo Corpo, lembrando que normalmente quem dá aulas de dança são ex-bailarinos. “Uma coisa é você saber ministrar uma aula, ser preparado para isso”, compara Rodrigo, cujo grupo Corpo mantém escola de dança com mais de 300 alunos.
De acordo com a professora Lúcia Gouvêa Pimentel, no primeiro momento o curso deverá atender demanda reprimida bem grande que, com o tempo, deverá se normalizar. Apesar do interesse da Escola de Educação Física da UFMG em abrigar a licenciatura em dança na capital, ela grarante que na instituição não há conflitos em pensar o curso, que, além de contar com a participação de professores daquela escola em sua implantação, também terá disciplinas ministradas na unidade. “Acabamos criando um curso nos moldes que interessam à Escola de Belas Artes, que tem por ênfase a questão da prática aliada à teoria”, antecipa Lúcia.
“Buscamos também uma flexibilidade curricular que atenda a própria demanda da universidade, onde temos a questão da formação complementar, além das atividades artístico-culturais”, acrescenta. Ela admite que não há intenção da UFMG de criar um grupo de dança, porque ela já abriga o grupo Sarandeiros, que é ligado, inclusive, à Escola de Educação Física. “O próprio Grupo Corpo surgiu do nosso festival do inverno, assim como os grupos 1º Ato, Galpão”, lista, orgulhosa a professora, salientando que a universidade tem a questão da formação de grupos em um esquema mais aberto.
Novo mercado
Como lembra a professora Mônica Ribeiro, que ministra aulas na área de estudos corporais para os alunos de teatro da Escola de Belas Artes, além de formação obrigatória e do direito de opção a um dos dois percursos estético-pedagógicos (dança contemporânea e danças populares brasileiras), o aluno de dança da UFMG terá ainda um outro eixo do curso, relacionado à dança e necessidades especiais. “Além de preparar o futuro professor para os ensinos médio e fundamental, queremos contribuir para que ele possa atuar neste grande mercado de organizações nãogovernamentais (ONGs) e em projetos como o Arena da Cultura, da Prefeitura de Belo Horizonte, e aqueles que trabalham especificamente com as necessidades especiais.”
Na tentativa de traçar um perfil do tipo de profissional que irá sair do curso, Mônica repara que, além da capacidade técnica em algum tipo de dança, ele terá conhecimentos de história da dança, história do corpo e do estudo do movimento aplicado à dança, bem como de estudos de processos criativos em dança e da rítmica do movimento. Isto sem falar no estudo da pedagogia do movimento e da dança, que serão muito peculiares à licenciatura da UFMG, onde o estudante também terá acesso fundamental às áreas de sociologia, política e didática da dança.
Ailton Magioli
Ver outras Notas