Diálogos Artístico-culturais entre a Universidade e Comunidade: Um projeto de pesquisa em interface com a extensão do Curso de Dança da Universidade Federal de Viçosa/UFV
 

Aula de Dança Contemporânea na Escola Edmundo Lins, com o bailarino convidado, Paulo Silva


Apresentação de dança pós-moderna de alunos do Curso de Dança na Escola Alice Loureiro


Alunos da Escola Municipal Nossa Senhora de Fátima assistindo apresentação no Curso de Dança


Apresentação de Flamenco da Bailarina Estela V. Villegas para alunos da Escola Raul de Leoni


Alunos da Escola Anita Chequer assistindo apresentação de Dança do Ventre da bailarina convidada, Katiúscia Paiva Silva


Alunos de várias escolas públicas com os bailarinos de dança contemporânea, Joana Ribeiro e Marito Olsson-Forsberg, logo após espetáculo no Espaço Fernando Sabino


Alunos da Creche Santa Terezinha em aula de improvisação


Alunos da Escola Anita Chequer em ensaio, no Espaço Fernando Sabino, da coreografia que iriam apresentar no “Festival Dançidade” em 2009
 
Alba Pedreira Vieira, Ph.D. em Dança
Profa. do Curso de Dança da UFV


Preparando o palco

Viçosa/MG é uma cidade universitária cuja economia está basicamente voltada para a Universidade Federal de Viçosa (UFV), considerada uma das melhores do país. Nessa universidade, as áreas de ciências agrárias e tecnológicas estão dentre as mais desenvolvidas do país. A cidade não possui muitos espaços para o lazer e menos ainda para a apreciação ou para o fazer artístico. As apresentações artísticas e culturais restringem-se, na maioria das vezes, ao espaço Fernando Sabino ou o Teatro do Departamento de Economia Doméstica que estão localizados dentro do campus universitário. Existem algumas pequenas apresentações que se realizam em outros espaços, mas grande número dos espetáculos que trazem profissionais de outras localidades ou mesmo da própria cidade e da universidade ocorrem nestes locais.

A UFV criou seus dois primeiros cursos de Artes há cinco anos. Os cursos criados dentro das linguagens artísticas foram de dança – licenciatura e bacharelado. A grande maioria das apresentações de dança antes da criação do curso e mesmo em seu início eram os espetáculos e festivais de uma academia de dança da cidade. Anteriormente, algumas apresentações de dança contemporânea também foram feitas pelos alunos do curso de especialização em Dança Educativa Moderna da UFV (esses alunos já eram profissionais da área de dança e provenientes de diversos estados brasileiros). Outras apresentações menos esporádicas começaram a ser apresentadas pelos alunos dos cursos universitários de dança recém iniciados em nível de graduação no ano de 2002. Estes cursos de graduação vêm se desenvolvendo e tem se tornado foco de atenção de várias regiões do país. Os professores, com formações educacionais e artísticas bastante diferenciadas, trazem diversas experiências de outras localidades do Brasil e do exterior, e os alunos também trazem experiências diversificadas de suas cidades de origem (interioranas e centrais). Isso tem possibilitado um diálogo rico entre as mais diversas culturas, entre as mais diversas discussões que ocorrem no nosso país e em outros países sobre a questão cultural e sobre os acontecimentos da dança em nossa atualidade. Esse diálogo tem vindo à tona através dos corpos dançantes que têm chegado à cidade. As novidades e as tradições se mesclam e tudo transborda em apresentações artísticas que trazem os mais diversos olhares para a dança.

Os cursos de graduação em dança são novos (iniciaram-se as aulas em 2002 como os primeiros cursos universitários dessa natureza em Minas Gerais), os nossos discentes estão de passagem e sempre trazem novidades o que consideramos muito positivo. Porém, um projeto denominado “Educação para as Artes” (financiamento do CNPq e da FAPEMIG) tem sido desenvolvido desde janeiro de 2008 para levar nossos trabalhos para fora dos ‘muros’ (ainda que imaginários) do complexo universitário. As disciplinas do curso quase sempre são finalizadas com alguma pequena montagem artística possibilitando o diálogo entre os estudos teóricos e a prática corporal em dança. O curso ainda oferece uma diversidade de projetos de extensão já no intuito de compartilhar com a comunidade da região esta arte e poder inseri-la no cotidiano da cidade. Tanto a partir das disciplinas oferecidas como dos projetos de extensão e pesquisa realizados, todo final de semestre são realizadas (algumas vezes precariamente) várias apresentações dentro e fora do campus universitário buscando a difusão cultural e a promoção do entendimento de nossa arte.

O referido projeto conta com mecanismos que são disponibilizados para que a comunidade possa ter acesso às discussões sobre cultura e, não somente à discussão, mas também à apreciação e à participação efetiva deste bojo cultural no qual as artes estão profundamente envolvidas.

Abrindo as cortinas: o espetáculo se inicia

Pensando na necessidade de outros mecanismos que possam apoiar ainda mais a valorização e difusão cultural que vem sendo timidamente desenvolvida no país, um grupo de professoras do Curso de Graduação em Dança da Universidade Federal de Viçosa/UFV propôs em 2007 um projeto de pesquisa em interface com a extensão a dois órgãos de fomento, CNPq e FAPEMIG. Tendo sido aprovado em ambas instâncias, o projeto “Educação para as Artes”, desde janeiro de 2008, tem desenvolvido seu trabalho de campo em instituições educacionais de Viçosa/MG; em 2008 o projeto também alcançou alunos da rede pública de Paula Cândido/MG. Nestas duas cidades mineiras, há parceria com as respectivas Secretarias Municipais de Educação.

O projeto foi realizado em oito turmas de seis escolas públicas de ensino básico de Viçosa-MG por um ano e meio (janeiro de 2008 a julho de 2009). Neste período, cada escola foi atendida por quatro meses; também nesta cidade o trabalho foi desenvolvido em quatro creches não-municipais e filantrópicas (anos de 2008 e 2009) e na Pastoral do Menor – neste local e em Paula Cândido o projeto, sob orientação da Profa. Evanize S. Romarco, se desenvolveu em 2008 e atendeu alunos de diferentes escolas públicas.

O total de alunos que participou deste projeto foi de 3472. Podemos afirmar que a população foi composta por dois grupos. Houve um grupo de educandos que participou diretamente do estudo, e outro grupo que participou indiretamente. Em ambos os grupos, as idades dos participantes variaram de 02 a 18 anos; havia alunos de ambos os sexos. Apesar de não podermos determinar, com exatidão, o nível sócio-econômico de todos os participantes, eles atendiam uma escola pública ou creche não-municipal filantrópica. Assim, deduzimos que suas famílias são, geralmente, de baixo a médio poder aquisitivo, pois não podem arcar com a educação particular.

Os participantes diretos totalizaram 536 estudantes. Destes, 273 eram alunos do ensino básico de Viçosa (252 das escolas e 21 alunos da Pastoral do Menor), 60 de Paula Cândido e 203 alunos de creches (93 em 2008 e 103 em 2009, participantes do projeto de Extensão “LudiDança” e sete em outras creches em que alunos do Curso de Dança faziam estágio pedagógico). Os dados dos participantes diretos foram coletados através de observação participante, análise de fotos e vídeos, questionários iniciais e finais (escritos ou orais) e/ou desenhos.

Os participantes indiretos totalizaram 2936 (2903 alunos no turno trabalhado nas escolas em Viçosa, 19 na pastoral do menor e 14 na Creche Santa Terezinha). Os dados dos participantes indiretos foram coletados somente através da observação participante, e da análise de fotos e vídeos. Alguns dos participantes indiretos também responderam a, somente, um dos questionários (inicial ou final).

Os estudantes que participaram diretamente tiveram uma ou duas aulas teórico-práticas semanais de gêneros diversificados de dança, e fruição de vídeos, apresentações e espetáculos, de grupos e/ou artistas locais e nacionais, ao vivo de diversos estilos na escola e em teatros e no Curso de Dança da UFV na UFV.

Eles observadaram aulas práticas dos alunos do Curso de Graduação em Dança da UFV e, finalmente, vários participantes se envolveram em processos criativos de improvisação e composição coreográfica que resultaram na produção e apresentação destes alunos como bailarinos na própria escola, em três espetáculos nos teatros da UFV e uma apresentação em praça pública.

Alunos que participaram indiretamente da pesquisa constituíram dois grupos: (1) aqueles que participaram das oficinas/aulas, assistiram espetáculos e apresentações de dança, observaram as aulas de dança em nível de graduação de alunos do Curso de Dança da UFV, mas não responderam aos dois questionários ou a um deles; (2) aqueles que não tiveram aulas semanais, não responderam aos questionários, mas assistiram às apresentações de dança nas escolas.

As aulas focaram não no ensino de um gênero, mas procuraram abordar a ampla gama de vocabulários que constitui a dança (por exemplo, dança contemporânea, flamenco, ballet, dança do ventre, dança de salão, hip hop, improvisação, sapateado). Procurávamos historicizar e contextualizar a introdução desses gêneros, discutindo aspectos que permeiam as relações entre dança e sociedade: indústrial cultural, questões de gênero e étinicas e outros. As apresentações eram geralmente seguidas por discussões com o público.

Abrindo cortinas para novos espetáculos

Nesta pesquisa trabalhamos com a estética, tema complexo e denso, motivo este que o distancia de muitos professores do ensino básico que se propõe a trabalhar com arte, incluindo a dança. Estes dois anos de trabalho de campo nos permitiram compreender melhor a relação dos sujeitos com obras e processos artísticos – o que muitos chamam de sensibilidade estética – na contemporaneidade. O evidente interesse demonstrado pelos participantes no apreciar, saber e fazer artístico nos leva a considerar que esta pesquisa atendeu a desejos inerentes da maioria da população participante. Trabalhos semelhantes podem fortalecer nos alunos seus anseios artístico-culturais, ampliá-los, lapidá-los e dialogá-los com outras linguagens artísticas e com o contexto sócio-histórico, contribuindo para uma educação estética e artística qualificada através da usufruição de elementos básicos de vários gêneros de dança e da fruição de apresentações de dança variadas e de qualidade.

Os resultados permitem sugerir que através de metodologias artístico-investigativas diversificadas e duradouras de fruição e usufruição, pode-se ampliar a sensibilização estética para apreciação e até fruição em dança. Sob o prisma da ação e da reflexão, o observar outros processos artísticos coletivos e experimentar construir os seus próprios, estimulou pontes entre a realidade do sujeito e universos até então inusitados, desconhecidos da arte e da cultura. Acreditamos que o participante dos caminhos criativos, ao se deparar com o novo, amplia a consciência de si mesmo e simultaneamente, através dos elos que são construídos, torna-se observador do mundo que o cerca e de si. Alcançando essa nova perspectiva interior e exterior, ele/ela apreende também uma nova visão pessoal e social. Parece termos alcançado este patamar neste estudo.

Para compartilhar a proposta metodológica inovadora deste trabalho, está sendo produzido um DVD didático-pedagógico que será, em breve, distribuído em escolas mineiras e secretarias de cultura. Este projeto deixou claro para nós, pesquisadores envolvidos, o papel fundamental da universidade em desenvolver propostas metodológicas de educação para as artes, especificamente neste caso, em dança, através de projetos de pesquisa-ação que ampliam a sensibilidade estética e o conhecimento cultural do público. Baseados nesta experiência, vislumbramos que as pontes entre universidade e sociedade podem ser ampliadas e qualificadas se trabalhos semelhantes se desenvolvam como práticas de intervenção e de pesquisa que reflitam sobre todo o processo. Estes podem ser passos iniciais para se pensar políticas culturais para as universidades brasileiras que promovam sua maior integração com as comunidades.

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