Mar adentro
 
 
Morre Petrônio Bax, artista que integrou a primeira geração dos alunos de Guignard. Obra ficou conhecida pela mescla de surrealismo e motivos religiosos, com paisagens submersas.

Morre, dia 19 de novembro de 2009, aos 82 anos, de parada cardíaca, o pintor Petrônio Bax. O corpo do artista foi velado na casa dele, no condomínio Miguelão, vai ser cremado e levado para Carmópolis de Minas, onde ele queria ser enterrado. Deixa viúva, Ieda Bax, e dois filhos, Eduardo e Simone. “Foi um homem dedicado à fé e à arte, preocupado com a natureza, a vida dos mais pobres e a educação dos jovens”, conta Simone Bax, que cuidava da obra do pai. Um dos últimos trabalhos do artista, cerca de 200 faces de Jesus, feitas em agradecimento à cura de problema saúde, ganha exposição, em 12 de dezembro, no anexo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

“Petrônio Bax foi o artista que fez a paisagem transcender o mundano”, afirma a historiadora Ivone Luzia Vieira, vendo na obra do pintor a afirmação do espiritual, do transcendente e do sublime. Signos emblemáticos dessa perspectiva, aponta a pesquisadora, são as muitas pinturas em que o mundo terreno (inclusive Ouro Preto e até a Santa Ceia) aparece submerso, envolto por peixes, algas e cavalos-marinhos. Motivo, observa, que está na obra do artista desde os anos 1950. E que amadurecido e estruturado nos anos 1960, gera obras que “ganham beleza e a dignidade de arte modernista em grande tom, de muita expressividade”. Trata-se, para a historiadora da arte, de visualidade que traduz a síntese entre temas estéticos (o surrealismo) e religiosos (o cristianismo), ambos caros ao artista, “que tinha pincelada muito bonita”.

“Bax, com uma contradição – o mundo terreno submerso –, propõe uma percepção profunda do que estaria além do nosso olhar, põe-se à procura do divino, elemento que traz a luz, o conhecimento, aspectos que para ele tornariam o homem mais humano”, explica Ivone Luzia. A obra do artista, como a de todos os alunos mais próximos de Guignard, articula o tradicional e o moderno. Por um lado, há ênfase na pintura, no desenho e resgate do barroco. E, ao mesmo tempo, adoção de estética moderna, no caso do artista o surrealismo, além de algumas incursões pela abstração. “É perda grande, não só para as artes de Belo Horizonte, mas para a geração Guignard, que foi quem deu início ao nosso processo de modernização das artes visuais”, observa Ivone Luzia.

Petrônio Pereira Bax nasceu em Carmópolis de Minas, em 1927. Estudou pintura com Alberto da Veiga Guignard e escultura com Franz Weissmann na Escola Guignard, em Belo Horizonte, entre 1946 e 1951, tendo sido contemporâneo de Amilcar de Castro, Mary Vieira e Jefferson Lodi. Participou de diversos salões de arte, ganhando muitos prêmios. É um dos artistas mais conhecidos de Belo Horizonte. Petrônio Bax ganhou, em 2008, retrospectiva da obra, na Grande Galeria do Palácio das Artes, além de livro sobre os 50 anos de atividades artísticas, sob a coordenação de Ivone Luzia Vieira. Além das artes visuais, dedicou-se à literatura, tendo publicado cinco livros, entre eles Espelho de Alexandra, Som de um caramujo e Barco, sonho de pintor.

Yara Tupinambá, artista plástica
“Petrônio foi um dos artistas de destaque da primeira geração dos alunos de Guignard e dominou, como todos os alunos, a técnica. O conteúdo poético de Guignard permaneceu com ele, que criou uma obra de grande sensibilidade e beleza”.

Maria Helena Andrés, artista plástica
“Era um ser muito católico e religioso. Eu o conheci na Escola de Belas Artes Guignard. Desde o início, Bax demonstrou grande talento para o óleo e o desenho. Ele foi um grande seguidor de Guignard, transformando esta influência em estilo próprio. Perdemos um grande artista”.

Fernando Lucchesi, artista plástico
“Trabalhei com o Márcio Sampaio, no Palácio das Artes, na montagem de uma retrospectiva da obra dele, na Grande Galeria. Lembro-me de que ele costurava um fundo de mar com paisagens que mais pareciam coisa do Guignard, do Chanina. A morte dele foi uma grande perda”.

Chanina, artista plástico
“Quando estava no ginásio, no Colégio Anchieta, sentávamos juntos na mesma carteira. Eu fazia um desenho de um lado e ele do outro. O Petrônio tinha mania de fundo do mar, então enchia de peixinhos os quadros”.




 
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