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Lady Day. Billie Holiday dizia ter aprendido a cantar jazz fazendo pequenos serviços em bordéis

Billie Holiday faria cem anos


O mundo da música lembra de uma das maiores cantoras de todos os tempos no centenário de seu nascimento


Billie Holiday, ou Lady Day, como era também conhecida esta diva considerada uma das maiores cantoras de jazz de todos os tempos. Era descrita como uma mulher deslumbrante e que viveu sua vida a 200%, apesar de todos os dramas pelos quais passou.

Billie Holiday morreu com apenas US$ 50 presos em uma das coxas, apesar de ter se tornado uma lenda do jazz, tendo sido pioneira para gerações inteiras de cantores. No final de sua vida, estava exausta pelo consumo de heroína, a perseguição policial e um marido que a espancava com tanta força que ela precisava manter suas costelas amarradas com fita durante os seus shows.

Quando seu corpo parou de lutar em 1959, aos 44 anos, ela estava com uma prisão decretada em uma cama de hospital pelo uso de drogas e suas economias se limitavam aos US$ 50 dólares dados por um jornalista interessado em uma entrevista. Mas, com o centenário do seu nascimento, neste dia 7 de abril de 2015, uma imagem mais rica de Billie Holiday emerge.

Artistas, sem esquecer seus fracassos, prestam homenagem não apenas a uma voz inefável mas também a sua luta contra o racismo. Quando o escritor Lanie Robertson escreveu a peça “Lady Day at Emerson’s Bar and Grill”, em que a cantora norte-americana revisita sua vida na frente de um público escasso em uma de suas últimas apresentações, montada pela primeira vez em 1986, “sua imagem era depreciada por uma grande parte da população negra dos Estados Unidos”, lembra o autor. “Ela era um modelo terrível, viciada, bêbada, promíscua, não era uma ‘boa mulher’”, explica Robertson. “Mas houve uma mudança total na opinião da sociedade sobre Billie Holiday. Ela passou a ser vista como a combatente pelos direitos civis, uma mulher que aguentou os piores pré-julgamentos e discriminação racial”, acrescenta. Segundo ele, “ela é um símbolo dos negros que combateram e lutaram por seus direitos”.

Billie Holiday foi vítima de racismo até mesmo em Nova York, onde precisava usar o elevador de serviço em hotéis de luxo. Foi a primeira estrela do jazz a expressar a opressão dos negros, interpretando “Strange Fruit”, o conto horripilante de um linchamento, em 1939. Esta canção é muitas vezes associada a seu nome. “Quando ela cantava quase podíamos ouvir uma mosca voar. O público mergulhava no silêncio”, lembra Mikki Shepard, produtora do Apollo Theatre. Essa célebre sala de shows de jazz no Harlem era uma das únicas, junto ao Carnegie Hall, onde ela podia se apresentar no final de sua carreira. O Apollo vai celebrar seu centenário com uma série de eventos, incluindo uma apresentação de Cassandra Wilson.

Billie Holiday nasceu na Filadélfia, filha de uma empregada doméstica, sem pai e sem uma educação musical. Em suas memórias, ela explicou ter aprendido jazz fazendo pequenos serviços em bordéis quando criança. “Acredito que ela tocava as pessoas porque era verdadeira, autêntica”, considera Mikki Shepard. “O que eu acho fantástico, mesmo quando eu a escuto agora em 2015, é a sua grande musicalidade”, diz Sara Lazarus, artista norte-americana que vive em Paris. “Desde o início, ela era alguém fora do comum. As pessoas achavam que ela arrastava muito seu canto”, acrescenta ela, que prestou homenagem sábado à noite em Sunside, um clube da capital.

“Na verdade, muitas vezes, no final de suas frases, ela descia sua voz, um pouco como um saxofone que entoa um último suspiro”, explica Sara Lazarus. Segundo ela, dois elementos essenciais fizeram de Billie Holiday uma cantora extraordinária: a sua maneira de reescrever uma melodia e a forma rítmica de cantar uma frase. “Ela dava vida e significado para as músicas, muitas vezes com um pouco de floreado, alterando a melodia e o ritmo”, diz. “Foi uma verdadeira, uma grande musicista. Ela ouvia Bessie Smith e ouvia Louis Armstrong, com quem aprendeu a liberdade rítmica, como colocar as palavras e as notas”, confirma Franck Bergerot, editor da “Jazz Magazine”. “Ao mesmo tempo que brincava com o drama de sua vida, ela tinha um jeito de cantar muito deslumbrante”, descreve. Desta forma, Lady Day trouxe, durante seus primeiros anos como cantora profissional nos anos 30, um novo tom, quase subversivo, para a época. “Foi, talvez, a primeira cantora a ser extremamente criativa no fraseado. Ela podia alcançar o fim do tempo, mas para ser capaz de cantar no final do tempo, você realmente tem de ter um ritmo individual muito forte. Ela tinha um timing infalível”, decifra o cantor belga David Linx. A estas qualidades se adicionam o timbre de sua voz, espumante e clara em sua juventude, antes de definhar em razão dos vários abusos – drogas ilícitas, álcool, tabaco – que marcaram a vida de Lady Day. A isto se acrescenta, diz Franck Bergerot, “uma grande sobriedade na interpretação” da parte de um cantora que “nunca forçava uma expressão”.

Billie Holiday imprimiu sua assinatura vocal em grandes sucessos, como “You’ve Changed”, “Yesterdays”, “Lover Man”. Ela também revelou seu talento como “compositora” ao coescrever clássicos como “Don’t Explain”, “Somebody’s on My Mind” ou “God Bless the Child”.

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