A revelação, numa reportagem no “New York Times”, de que Bob Dylan usa em seu novo disco, “Modern times” (Sony BMG), versos de um obscuro poeta americano, Henry Timrod (que viveu no século XIX, no período da Guerra Civil), não é surpresa para quem acompanha a carreira do cantor e compositor.
A atitude é eticamente questionável, afinal ele não dá o crédito de sua fonte — a frase “More frailer than the flowers, these precious hours”, por exemplo, na canção “When the deal goes down”, foi tirada do poema “Rhapsody of a Southern winter night”, de Timrod, e, segundo Brian Cisco, autor da biografia do poeta, há outros casos espalhados pelas “novas” canções de “Modern times” —, mas essa era uma prática comum na cena da música folk, na qual ele estreou, no início da década de 60. Muitas das músicas de cantores como Woody Guthrie e Pete Seeger eram baseadas em temas de bluesmen ou de domínio público, ganhavam letras adicionais e “novos” autores, mas raramente os créditos traziam as fontes originais.
Em “Modern times”, além dos versos de Timrod, Dylan “recria” um velho clássico do blues e até mantém o seu título, “Rollin’ and tumblin’” — a estrutura da composição é a mesma da assinada por McKinley Morganfield, ou Muddy Waters.
Letras e composições chupadas à parte, sonoramente o produtor Jack Frost (um pseudônimo usado por Dylan na ficha técnica do disco) também bebe do passado. Cercado dos músicos que o acompanham nos shows e alternando-se nos vocais, guitarra, gaita e piano, Frost/Dylan investe no formato que marcou seus melhores discos, entre 1965 e 66 — “Bringing it all back home”, “Highway 61 revisited” e “Blonde on blonde” —, quando, para o desespero dos puristas do folk, migrou do som acústico para o elétrico.
Reinvenção artística começou no disco de 2001
Dylan entrou no século XXI disposto a rever seu passado — na autobiografia “Chronicles” e no ótimo documentário de Martin Scorsese, “No directions home” —, e sua música ganhou com isso. “Love and theft”, lançado em 2001, foi o seu melhor disco em mais de três décadas. E agora esse “Modern times”, inspirado em seus anos 60, consegue manter o alto nível — mesmo que atropelando a ética.
Antonio Carlos Miguel - O Globo
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