Villa-Lobos recebe homenagem em Paris pelos 50 anos de sua morte
 
 
PARIS, França — Uma série de concertos e um colóquio serão organizados em Paris esta semana, entre os dis 16 a 22 de novembro de 2009, em homenagem ao compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959), por ocasião dos 50 anos de sua morte.

Um dos mais prolíficos compositores do século XX, Villa-Lobos viveu em Paris nos anos 20, onde chegou patrocinado pelo pianista polonês Arthur Rubinstein.

Uma vez na Cidade Luz, o compositor brasileiro - que explorou todos os estilos musicais de seu país e deixou 2.000 partituras abrangendo todos os gêneros, da ópera à música de câmara, passando pela dança e pelos choros - fez amizade com compositores como Edgar Varèse e Igor Stravinsky, e com artistas como Pablo Picasso e Fernand Léger.

As comemorações parisienses em homenagem ao compositor, que morreu há exatamente meio século no Rio de Janeiro - onde nasceu no dia 5 de março de 1887 -, começam nesta terça-feira com um "Requiém para Villa-Lobos", na igreja de Saint-Louis des Invalides, onde sua "Missa de São Sebastião" será interpretada.

Trechos musicais e cenas de sua ópera "Yerma" estão no repertório do Grand Salon des Invalides, onde o violonista Fabio Zanon oferecerá no dia 30 de novembro um concerto de algumas de suas obras para violão.

A rádio nacional francesa Radio France, por sua vez, programou um fim de semana inteiro - de 11 a 13 de dezembro - para comemorar os 50 anos da morte do compositor, que classificava sua música como "natural como uma cascata".

A Orquestra Nacional da França (ONF) explorará o universo sinfônico de Villa-Lobos oferecendo no dia 11 de dezembro dois de suas célebres "Bachianas Brasileiras" - que foram adaptadas pela cantora americana Joan Baez em 1965 - e dois de suas "Danças africanas".

Dois recitais, do violonista Yamandu Costa e da pianista Cristine Ortiz, acompanhados pelo violoncelista Antonio Meneses, estão programados para o dia 12 de dezembro na sala de concertos da Rádio France.

No dia seguinte, um recital da pianista Sonia Rubinsky será o prelúdio de uma tarde consagrada ao chorinho, matéria-prima da música de Villa-Lobos. Estão incluídos no programa "Quinteto em forma de choro", "Choros nº 5 (Alma Brasileira)", peça para cavaquinho e violão, e "Lenda do caboclo".

Em outro evento, a Universidade de Sorbonne dedicará um colóquio nos dias 14 e 15 de dezembro de 2009 ao compositor autodidata, cujo amor pela música nasceu nas ruas e nas regiões mais recônditas de seu país.

Uma série de concertos e homenagens a Villa-Lobos no cinquentenário de sua morte também acontecerão ao longo desta semana no Rio de Janeiro.

Um dos pontos fortes das comemorações está previsto para sexta-feira, quando a orquestra sinfônica Petrobras apresentará a primeira audição mundial de "Biguás", uma peça do maestro Ricardo Tacuchian em homenagem a Villa-Lobos, que nasceu no Rio.

Ao longo da semana, o Quarteto Radamés Gnattali interpretará as obras para quarteto de cordas do compositor.

Em São Paulo, um simpósio internacional consagrado a Villa-Lobos acontecerá até sábado no auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP).

História

Heitor Villa-Lobos se tornou conhecido como um revolucionário que provocava um rompimento com a música acadêmica no Brasil. As viagens que fez pelo interior do país influenciaram suas composições. Entre elas, destacam-se: "Cair da Tarde", "Evocação", "Miudinho", "Remeiro do São Francisco", "Canção de Amor", "Melodia Sentimental", "Quadrilha", "Xangô", "Bachianas Brasileiras", "O Canto do Uirapuru", "Trenzinho Caipira".

Em 1903, Villa-Lobos terminou os estudos básicos no Mosteiro de São Bento. Costumava juntar-se aos grupos de choro, tocando violão em festas e em serenatas. Conheceu músicos famosos como Catulo da Paixão Cearense, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e João Pernambuco.

No período de 1905 a 1912, Villa-Lobos realizou suas famosas viagens pelo norte e nordeste do país. Ficou impressionado com os instrumentos musicais, as cantigas de roda e os repentistas. Suas experiências resultaram, mais tarde, em "O Guia Prático", uma coletânea de canções folclóricas destinadas à educação musical nas escolas.

Em 1915, Villa-Lobos realizou o primeiro concerto com suas composições. Nessa época, já havia composto suas primeiras peças para violão "Suíte Popular Brasileira", peças para música de câmara, sinfonias e os bailados "Amazonas" e "Uirapuru". A crítica considerava seus concertos modernos demais. Mas à medida que se apresentava no Rio e São Paulo, ganhava notoriedade.

Em 1919, apresentou-se em Buenos Aires, com o Quarteto de Cordas no 2. Na semana da Arte Moderna de 1922, o aceitou participar dos três espetáculos no Teatro Municpal de São Paulo, apresentando, entre outras obras, "Danças Características Africanas" e "Impressões da Vida Mundana".

Em 30 de junho de 1923, Villa-Lobos viajou para Paris financiado pelos amigos e pelos irmãos Guinle. Com o apoio do pianista Arthur Rubinstein e da soprano Vera Janacópulus, Villa-Lobos foi apresentado ao meio artístico parisiense e suas apresentações fizeram sucesso.

Retornou ao Brasil em final de 1924. Em 1927, voltou à Paris com sua esposa Lucília Guimarães, para fazer novos concertos e iniciar negociações com o editor Max Eschig. Três anos depois, voltou ao Brasil para realizar um concerto em São Paulo. Acabou por apresentar seu plano de Educação Musical à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Em 1931, o maestro organizou uma concentração orfeônica chamada "Exortação Cívica", com 12 mil vozes. Após dois anos assumiu a direção da Superintendência de Educação Musical e Artística. A partir de então, a maioria de suas composições se voltou para a educação musical. Em 1932, o presidente Vargas tornou obrigatório o ensino de canto nas escolas e criou o Curso de Pedagogia de Música e Canto. Em 1933, foi organizada a Orquestra Villa-Lobos.

Villa-Lobos apresentou seu plano educacional, em 1936, em Praga e depois em Berlim, Paris e Barcelona. Escreveu à sua esposa Lucília pedindo a separação, e assumiu seu romance com Arminda Neves de Almeida, que se tornou sua companheira. De volta ao Brasil, regeu a ópera "Colombo" no Centenário de Carlos Gomes e compôs o "Ciclo Brasileiro" e o "Descobrimento do Brasil" para o filme do mesmo nome produzido por Humberto Mauro, a pedido de Getúlio Vargas.

Em 1942, quando o maestro Leopold Stokowski e a The American Youth Orchestra foram designados pelo presidente Roosevelt para visitar o Brasil O maestro Stokowski realizou concertos no Rio de Janeiro e solicitou a Villa-Lobos que selecionasse os melhores músicos e sambistas, a fim de gravar a Coleção Brazilian Native Music. Villa-Lobos reuniu Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Cartola e outros, que sob sua batuta realizaram apresentações e gravaram a coletânea de discos, pela Columbia Records.

Em 1944/45, Villa-Lobos viajou aos Estados Unidos para reger as orquestras de Boston e de Nova York, onde foi homenageado. Em 1945 fundou a Academia Brasileira de Música. Dois anos antes de sua morte, o maestro compôs "Floresta do Amazonas"para a trilha de um filme da Metro Goldwyn Mayer. Realizou concertos em Roma, Lisboa, Paris, Israel, além de marcar importante presença no cenário musical latino-americano.

Praticamente residindo nos EUA entre 1957 e 1959, Villa-Lobos retornou ao Brasil para as comemorações do aniversário do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com a saúde abalada, foi internado para tratamento e veio a falecer em novembro de 1959.

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