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Roteiro | Espetáculos
espetaculo 1999=10

Espetáculo 1999=10


O espetáculo 1999=10, de Dudude Herrmann, investiga o absurdo, o vazio e a incomunicabilidade do ser humano.


Dudude Herrmann assina a concepção e direção de 1999=10 apenas como Dudude. Demora para a gente se acostumar. Felizmente, em cena, ressalvado o inconfundível sabor de criação coletiva (cada performer parece fazer exatamente o que criou para seu próprio corpo), está um espetáculo que lembra que a estrutura e o “corte final” têm uma assinatura só, integram-se ao mesmo tempo a velhas manias e inquietações atuais da diretora.

Das velhas manias vale destacar a obsessão pela linguagem. Dudude, ao longo de toda a carreira, sempre se entediou em dizer a mesma coisa duas vezes, ou em dizer duas coisas da mesma maneira. Não é à toa que aprecia tanto a arte da improvisação, e mesmo em espetáculos marcados estimula a criação dos intérpretes e abre espaço para a intervenção autoral deles. 1999=10 radicaliza nesse sentido, possivelmente por influência de uma das tais inquietações atuais da artista, o teatro. O espetáculo, na essência, parece estender a ruptura linguística que o romeno Eugene Ionesco (1909-1994) propôs em sua peça mais revolucionária, A cantora careca.

A cantora careca pode ser lida como brincadeira com a linguagem ou como demonstração da completa ineficiência da linguagem no cumprimento de sua função mais primária, a comunicação. No texto de Ionesco, qualquer cena poderia estar em qualquer lugar, as falas podem ser intercambiadas, as palavras podem ser trocadas. É a completa renúncia à ordem, a transformação do começo-meio-fim aristotélico em mera convenção numa estrutura que, por ser circular, pode começar em qualquer ponto (embora, claro, o ponto escolhido pelo autor seja perfeito para demonstrar este ponto de vista). O sentido, se existe, está na sintaxe, na estrutura, e não nessa palavra ou aquela.

Ionesco, bem de acordo com seu tempo, construiu essa provocação no texto. Dudude, além do histórico pessoal na dança e na expressão corporal, vive em época que valoriza corpo e imagem. 1999=10 se insere nessa época: demonstra que a inquietação ionesquiana sobre a inutilidade da linguagem vale também para gestos, movimentos, posturas, posições no espaço, maneiras de organizar o tempo. Assim como conhecemos cada estrutura de sintaxe e cada palavra que os performers dizem, identificamos, também, seus gestos e a maneira como se articulam nos corpos, entre os corpos, no palco, no tempo. Não importa, contudo, o quanto os conhecemos: eles insistem em não fazer sentido objetivo, em produzir a impressão de que assistimos a uma história sem enredo, em gerar aquele estranhamento que talvez seja a única coisa que ainda legitime a arte nestes dias de cultura de consumo.

Mesmo estruturas complexas (como a “palestra” no meio do espetáculo) expõem seu vazio. Pela descrição, pode parecer algo sério e hermético. Não é. Como Ionesco, 1999=10 transforma o absurdo em humor, numa demonstração de que experiências linguísticas podem produzir tanto prazer nos espectadores quanto criações com menos objetivos conceituais. E aí pode estar a essência dos bons espetáculos.

Espetáculo: 1999=10
Local: Galpão Cine Horto
Endereço: Rua Pitangui, 3.613, Horto - Belo Horizonte, MG
Data: 17 a 27 de fevereiro
Horário: quinta-feira a sábado, às 21h; domingo, às 19h
Classificação etária: -
Duração: -
Ingressos: R$ 14 (inteira) e R$ 7 (meia)
Informações: (31) 3451-5580

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